XXI
Como se póde viver!
De causas de todo em todo inversas e entre si repugnantes apparecem effeitos similhantissimos.
O despejo, por exemplo, a coisa hedionda que por ahi se chama cynismo, caleja e abroqueia tão rijamente o homem, que todas as setas da desgraça lhe resvalam do peito. Quando cuidamos vel-o soçobrado, eil-o se apruma a desafiar novas tempestades, e de tormenta em tormenta chega á derradeira edade, e acaba de cachexia, porque as cachexias não se curam com a valentia da alma.
Vejamos agora o justo em tribulações, o christão de tempera pacientissima e refractaria ao desanimo que prostra e mata. As calamidades a choverem-lhe, as injustiças dos homens a pôrem-lhe em duvida a justiça divina—por se dizer que o homem tem fórma e similhança de Deus; elle a abster-se, a amputar-se, a desaggregar-se do bom da vida, e a temperar com fel alguma coisa melhor para offerecer ao céo o amargor d'ella e a reluctação com que a toma, degenerando e estragando tudo que os outros saboream. Eis que umas pessoas queridas lhe morrem; e outras o deixam, quando elle a chorar lhes pedia amparo; fogem lhe e deshonram-n'o; e o christão atira-se aos pés da cruz, queixa-se, mostra as garrochas que o trespassam, os anjos como que baixam a descravar-lh'as; fecham-se as feridas, outras logo se abrem, e elle a exclamar:
«Mais, mais, Senhor!» Amplius, amplius, domine! Este é o christão, o penitente, o stoico setenta vezes santo. Eil-o ahi vae vida fóra, caindo, erguendo-se, pondo peito ao baque da legião que o tenta, esgrimindo a um e outro lado com a cruz, com o hyssope: ora magestoso, ora ridiculo; mas vivendo, vivendo, até aos sessenta, e ávante ainda, n'um viver que se nos figura a mais pavorosa das agonias!
Tal foi Braz Luiz de Abreu.
Quantas vezes o leitor, no decurso d'esta biographia, terá dito: «o homem vae morrer agora!»
Morrer! quando será isso? Ha de ainda viver, depois de tanto veneno que lhe imborcaram, ha de viver dezeseis annos. Dezeseis annos! sósinho! alli em Aveiro, não sei em que rua d'aquellas, em qualquer casa das mais desaconchegadas, a rever na téia da phantasia o rosto da mulher agonisante, das tres filhas mortas, das duas fugitivas, sem que mais aos seus ouvidos soasse o nome d'ellas, nem dos sacrilegos raptores das divinas esposas! E, como elle pôde, em meio d'isto, escrever ainda dois livros, dois grossos manuscriptos, que não sei onde param, um chamado Feniz Lusa, referindo a vida e acções do serenissimo infante o senhor D. Manuel, filho de D. Pedro II; e outro intitulado: Vida e acções do primeiro principe do Brazil para exemplar do nosso serenissimo principe D. José.[32]
Querem revelação para maiores assombros?
Em 1755, foi aquelle memorando terramoto de Lisboa. O padre Agostinho de Abreu, da companhia de Jesus, ia de Santo Antão para S. Roque, ao começar o tremor. Passava diante de uma casa que se estava derruindo, ouviu os clamores de dentro, entrou heroicamente para arrancar uma velha debaixo da couçoeira de uma porta, e ficou esmagado debaixo do tecto abatido. Já sabem que este jesuita era filho do padre Braz. Pois, quando a nova d'este desastre chegou ao pae, seis dias depois, o velho de sessenta e quatro annos ajoelhou, orou, levantou-se, limpou as lagrimas que lhe tolhiam a leitura do seu breviario, e leu o psalmo Miserere mei Deus.