O barão mandou-o á fava com louvavel discernimento, e escreveu quatro folhas de papel almaço, que sobrescriptou a sua mulher. O contheudo do aranzel tremendo era o disparate lastimoso de uma cabeça febril, apavorada de visões sangrentas, que o forçavam a estropiar a syntaxe de um modo lastimavel, e a desbancar o methodo do imaginoso Castilho no invento da orthographia.

No dia seguinte, ás onze horas da manhã, chegou o barão á sua quinta de Celorico, onde, creio que já se disse, viveram frades n'outro tempo. A entrada do proprietario{165} nos seus dominios foi assignalada pelo primeiro accesso de loucura formal.

Á entrada da antiga claustra, estava um S. Francisco de pau com o seu habito venerando.

O barão soltou medonhos gritos, clamando que o santo era o phantasma de Antonio de Almeida. A logica do preto foi insufficiente para convence'-lo de que o phantasma era o patriarca S. Francisco. Teimando aquelle em conduzi-lo pela mão ao pé da imagem, afim de convence'-lo com o tacto, o barão assentou-lhe na carapinha dois murros puxados d'alma, com os quaes o paciente preto tambem viu phantasmas luminosos.

Os primos circumvizinhos começaram a visitar o genro de D. Angelica, e saíam espantados do disparatar do barão, que descaía de uma conversação atilada para a historia do phantasma infesto, que apparecia na casa que fôra convento.

Fechado e trancado no seu quarto, o infeliz maniaco recitava monologos estirados em tom cavernoso. O charuto andava sempre á baila nas apostrophes descompostas, e recebia epithetos que esqueceram a Francisco Nunes.

Eram decorridas setenta e duas horas de jejum estreme, quando o barão pediu de comer a altos brados, e comeu porções incriveis de carneiro guizado com batatas, facilitando o transito d'estas com emborcados picheis do verdasco, predilecto seu.

Emergindo de uma especie de lethargia de leão sazonatico, o barão urrava como d'antes, recuando ao{166} phantasma, que já não era S. Francisco sómente. Qualquer sombra se lhe afigurava aventesma, ou avejão como elle a denominava. O proprio preto, se lhe assumava de repente á porta do quarto, ou por entre as arvores da quinta, fugia espavorido á gritaria rouquenha de seu amo.

Os facultativos chamados pela parentella compadecida capitularam de demencia a cousa, e receitaram as sangrias e os vesicatorios. Os meios persuasivos para o levarem á cama nada conseguiram; os da força seriam inuteis, por que o preto espadaudo e possante, invocava o testemunho da sua cabeça confusa contra o projecto da violencia. Ninguem se queria arriscar ao perigo certo de um murro secco do barão.

Contava elle a toda a gente a historia do charuto que já trazia meio desenrolado n'um canudo de papel...