—Minha senhora,—disse o brasileiro, gaguejando—Eu fui toda a minha vida negociante, apenas sei ler e escrever, e digo as cousas assim como ellas me vem á idéa. Ora bem; a menina está resolvida a ser minha companheira de toda a vida?

—Sim, senhor, disse ainda ha pouco que sim.

—É verdade que disse; mas póde ser que o dissesse para contentar seu pae, e lá no interior sentisse outra cousa.

—Disse o que sentia, e repito o que disse.

—Quem sabe se a senhora tinha alguma sympathia por ahi, e que lá por eu ter alguns vintens seu pae a fizesse voltar-se para outro lado?

—Não, senhor, eu não tenho affeição a alguem.

—Porque depois eramos ambos desgraçados; e eu devo dizer-lhe, que tudo o que eu mais tenho estimado n'este mundo é a minha honra; até hoje, louvado Deus, ninguem lhe pôz o dedo sujo; e seria mais facil eu deixar que me tirassem a vida do que a honra. Trabalhei muito anno para a conservar, cheguei até esta edade sem ser offendido, e assim d'estes cabellos brancos que{52} me vê, se alguem me atacasse a minha honra, tornava aos meus vinte e cinco annos. A menina entende-me?

—Creio que entendi, e sinto que v. s.ª me esteja offendendo com as suas supposições injuriosas.

—Isto é um modo de falar, sr.ª D. Ludovina, e perdoará se a offendi. Tudo o que lhe digo é em bem seu, e meu. Eu sou o que está vendo; a menina é nova e linda; se vê que se ha de arrepender, diga-me a verdade do seu coração, que eu arranjarei as cousas de modo que seu pae se queixe de mim e não da senhora.

—Já disse a v. s.ª que desejo ser sua esposa; não sei que mais deva dizer-lhe. Não me hei de arrepender, porque espero merecer sempre a sua estima e confiança; mas tenho um favor a pedir-lhe.