D. Ludovina córou até ás orelhas.
A leitora faça o que quizer.
Eu não ri, nem córei: deu-me para chorar como uma vide, quando me contaram isto.{54}
{55}
V
Inventou-se uma lua para os casados.
Os irracionaes teem uma lua; essa entende-se, sabe-se o que é. Mas o aluarem-se, á força, os casados, é uma idéa ingrata á decencia, feia, e deshonesta.
Uma senhora innocente que diz: «lua de mel» suja os labios, se preza a pureza n'elles; se, porém, sabe o que diz, se sabe o que é o favo, o mel da lua, desdenha o pudor, e despreza-se.
Os noticiaristas das gazetas aforaram a phrase, sem saberem, talvez, que desaforavam as palavras. Os diarios do Porto, em 1856, noticiaram assim um casamento:
«Hontem ás nove horas da manhã, contraíram o sacramento do matrimonio o ill.mo sr. João José Dias, rico negociante que foi no Rio de Janeiro, com a ex.ma sr.ª D. Ludovina da Gloria Pimenta, filha do nosso amigo Melchior Pimenta. O sr. Dias deve á fortuna a escolha de uma noiva tão rica de prendas moraes como de formosura{56} angelica. A gentil menina encontrou um honrado protector, cuja fortuna, sendo immensa, vale menos que a briosa reputação que tem. Os esposos vão passar a LUA DE MEL á sua quinta de Celorico de Basto, para onde partiram hontem de manhã acompanhados dos numerosos amigos dos ditosos consortes. Diz-se que o sr. Dias vae mandar construir um palacete no Porto, onde tenciona fixar a sua residencia. Damos os parabens á cidade invicta por tão valiosa acquisição.
A local está redigida a primor, como lá se faz sempre nas gazetas; mas aquella LUA DE MEL indigna-me.