Outro, na passagem do rio Douro, escorrega do barco para a corrente, e mergulha; passados instantes, emerge á tona d'agua resfolegando, e pedindo soccorro. Travam-no os braços robustos do barqueiro que, em risco de morte, consegue salva'-lo, Vae leva'-lo á familia, mandam-no esperar á porta da rua, e recebe, como salvador d'uma vida cara aos seus, uma vida que os jornaes pranteariam com tarjas da grossura de um dedo, e vinhetas das mais funebres da typographia, recebe, finalmente, setecentos e vinte em cobre.

Isto é publico e notorio; mas não estava em chronica. Receio maguar a modestia dos generosos cavalheiros, por isso resalvo os nomes. Na quinta edição d'este livro, havidos os consentimentos respectivos, serão postos em estampa, para inveja de miseraveis sovinas, e estimulo á profusão da presente raça.

O commendador não era fona. Esse caínho feito não desluz os bizarros presentes que fazia á esposa e aos sogros. Ludovina era o primor da casquilhice, e do mais rico em gosto e droga. Para cada baile, para cada exposição do theatro lyrico, um vestido não visto, só comparavel{64} aos que trajára antes, e inferiores aos que trazia depois.

Os leões sertanejos, estes cinco ou seis pataratas, senhores de uma gloria tão productiva, que faz lembrar a dos dominios da corôa portugueza na Ethiopia, Arabia e Persia, os leões honorificos do Porto, se assestavam pertinazes os oculos na peregrina esposa do commendador, o mais que conseguiam era realisar o anexim nacional: «—viam-na por um oculo.»

João José Dias envesgava o olho de soslaio por sobre as feras; e, a meu ver, seria elle homem bastante para realisar, já não com um, mas com todos, a fabula do leão espinotado pelo orelhudo.

O commendador tinha em sua mulher inteira confiança, nada lhe alterava o conceito bem merecido; todavia era accessivel ao ciume sem causa. Nos bailes, andava o pobre homem sempre assustado. Não tinha socego, nem póro que não estilasse o suor da apoquentação. As affabilidades mais triviaes e innocentes da cortezia, um sorriso de Ludovina ao par dançante que a deliciava com ensosso palavrorio, o menor gesto de attenção a que a delicadeza obrigava a festejada dama, isso era um adstringente doloroso que apertava as entranhas do commendador.

N'um d'esses bailes, em que João José Dias emagreceu duas polegadas na circumferencia, appareceu Ricardo de Sá, que nunca mais vira Ludovina desde a vespera da sua derrota.

Audacioso até ao desatino, teve a petulancia de aprumar-se{65} diante de Ludovina, com a luneta insultante. A filha de D. Angelica pediu o braço a uma amiga e saíu d'aquella para outra sala. O commendador não fôra extranho ao acto, e seguiu-a com disfarce. Ricardo, brincando com os berloques do relogio, e tregeitando o habitual sorriso do homem tragico de romance, seguiu de longe as duas amigas, simulou um encontro casual, estacou diante d'ellas, e montou a luneta.

D. Ludovina rodou sobre o calcanhar e voltou-lhe as costas. Á cabeça do commendador subiu um repuxo de sangue, e os lobulos das orelhas fizeram-se-lhe escarlates como ginjas.

D. Angelica, que espiava o successo da sala proxima, acercou-se de Ricardo de Sá, fitou-o com fulminante soberania, e disse-lhe a meia voz: