—Faltei aos meus deveres de esposa?

«E ella a dar-lhe!

—Pois bem: quero viver como vivi nos primeiros seis mezes da nossa união. Quero ir ao theatro, aos bailes, ás visitas, como ia em solteira. Quero receber as minhas relações, como as recebi antes de ter metade da sua riqueza. Quero uma inteira liberdade como premio do meu procedimento para comsigo. Quero...

«Então isto, pelos modos, é «nós, el-rei, e justiça de Fafe!» Aqui não ha rei nem roque n'esta casa? é quero, e mais nada?

—Quero, sim, porque é de justiça o que já não tenho a baixeza de pedir; mas quando não, snr. Dias, meus paes teem uma casa estabelecida, e sobejos meios para eu me declarar independente d'essas riquezas com que o senhor me dotou, e que eu, de todo o meu coração,{80} rejeito, porque não acceito o preço porque fui vendida.

Ludovina, já de pé, com o rosto inflammado, e os bellos olhos coruscantes de cólera, sahiu de um impeto, deixando o commendador attonito na mais palerma immobilidade. D. Angelica ouvira tudo;

—Excedeste-te, Ludovina—disse ella—mas fizeste-me orgulhosa de ser tua mãe. Acceito, de hora em diante, a responsabilidade das tuas palavras, seja ella qual fôr.

João José Dias nem palavra n'aquelle dia e no seguinte. Ao terceiro havia theatro lyrico. D. Ludovina mandou buscar camarote. Ás sete horas e meia mandou pôr os cavallos á sege, e disse a seu marido se a acompanhava ao theatro. O commendador fez-se verde-garrafa, desenrugou as palpebras quanto poude, e pasmou os olhos suinos na attitude imperiosa de Ludovina, que apertava o botão da luva, e enroscava no collo as marthas.

—Vem, ou não?—repetiu ella.

«Espera, que eu visto-me—disse o commendador, tomado d'uma especie de susto irreflectido, que em muitos maridos é o corollario de demorados raciocinios.