Maria Isabel não lhe respondeu. A aia, affeita a lidar com os caprichos da senhora, absteve-se de repizar no assumpto desagradavel, posto que Maria Isabel, algumas vezes, ouvisse fallar indifferentemente do marido.

—A que hora vai a senhora para a rua dos Torneiros?

—A cadeirinha hade estar prompta ás nove horas.

—Por que não vai no coche do ministro Cavide, que lh'o offereceu?

—Não me appetece andar em côches alheios. Heide comprar um quando me parecer.

—Faz V. S.ª muito bem... não sei como el-rei lh'o não tem dado...

—Não quero. Sou bastante rica. Posso ter côche sem dever favores ao rei.

A conversação foi cortada pela vinda de Angela, que já estava vestida e encantadoramente galante com o seu gibão escarlate de passamanes de prata, saia de trez barras com debruns de lhama de ouro, chapins altos de setim branco e tacão escarlate, volante de rendas na cabeça, ondeando por sobre as espiraes de tranças louras que lhe deslizavam nas espaduas meio nuas.

Ás 9 horas entraram Maria Isabel e a filha na cadeirinha. Pouco depois, sahia D. João IV do palacio de Alcantara, em côche, com o manto de grão-mestre da ordem de Christo, precedido dos reis d'armas, e seguido do principe D. Theodosio, e cento e cincoenta cavalleiros das ordens militares, em cavallos pomposamente ajaesados.

El-rei ia só e melancolico; mas, no rosto carregado, relampedejou-lhe um clarão de alegria, quando, ao passar pela cadeirinha que ao longe conhecera, viu aquella formosa face cujo primeiro verniz de pudor se desbotára nos beijos do padre Luiz da Silveira.