Não mostra o Reo por sua parte descarga alguma em sua defeza, sendo-lhe dado vista, e Procurador para allegar de sua justiça e direito.

O que tudo Visto, e o mais dos Autos, disposição de direito em tal caso, declaram ao dito Reo, por traidor aleivoso, parrecida, assassino, e haver incorrido no detestavel crime de Leza Magestade de primeira cabeça, e como a tal o condemnam, e mandam, que com baraço, e pregão pelas ruas publicas, e costumadas seja levado á rasto á forca, aonde sendo-lhe primeiro decepadas as mãos no Pelourinho morra enforcado de morte cruel, e o seu corpo seja posto em uma fugueira e n'ella feito em pó, e em cinza, para que d'elle não fique memoria; e o condemnam outro sim em perdimento de seus bens para o Fisco, e Camara Real, e que seus descendentes hájam as penas, que por direito lhes são impostas: e esta Sentença se não publicará sem primeiro se dar conta ao dito Senhor, na fórma de suas ordens: e pague o R. os Autos. Lisboa 12 de Agosto de 1647.—Marcham, Monteiro, Beja, Marz.º, Stacio, Porto.

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Ao alvorejar da manhã de 21 de Agosto de 1647, sahiu o regicida do oratorio, onde permaneceu tranquillo, já orando, já conversando affectuosa e christãmente com o sacerdote. Se algumas vezes orava com fervor de lagrimas, e o padre lhe asseverava que nosso Senhor Jesus Christo, pai de misericordias, lhe perdoava, o padecente respondia que estava pedindo a Deus lhe tirasse d'este mundo uma filha que tinha, e cá ficava sob o pezo da ignominia de seu pai.

Apontava o sol, quando os algozes entravam no recinto a tosquiar-lhe a cabeça, a vestir-lhe a alva, e enroscar-lhe no pescoço e cintura a corda por onde haviam arrastal-o. Levado, á beira do padre, até ao atrio do Limoeiro, ahi mandaram-o estender-se sobre um esteirão, ao qual aprezilharam as cordas da garganta e da cinta, de geito que, ao repuxal-as, o não molestassem de modo que a vida perigasse.

As ruas desbordavam de povo que ululava gritos de colera, e premia os flancos da escolta.

Chegado ao Pelourinho, mandaram-no erguer, conduziram-no pela corda a um patamar de taboado, no centro do qual estava um cepo de madeira escura pintalgado ainda do sangue dos conjurados de 1641 e de Francisco de Lucena. Domingos Leite estendeu os braços no cepo, e o carrasco decepou-lhe as mãos de dois golpes. A forca da Ribeira hasteava-se a distancia de duzentos passos. Do Pelourinho ao patibulo o suppliciado revelou enormes dores nos estorcimentos dos braços que jorravam sangue em jactos fumegantes. O frade da agonia, lavado em lagrimas, murmurava-lhe tudo que o homem pode dizer em honra de Deus e esperanças do ceo.

Chegou o instante da piedade humana: o carrasco, balouçando-se-lhe nas espaduas, quando o corpo se inteiriçava pendente do triangulo, fez um gesto significativo de ter cumprido a justiça d'el-rei D. João IV.

Faltava ainda o complemento da sentença.

O verdugo cortou a corda. O cadaver baqueou no tablado. E logo dois ajudantes do executor o esquartejaram em quatro partes que encravaram com cavilhas de ferro em uns altos postes arvorados em quatro pontos da cidade, os quaes ahi estiveram expostos até que a podridão aconselhou o queimal-os, e arrojal-os ao Tejo.