—Levo-lh'a ao palacio de Alcantara todas as terças feiras. El-rei é doido pela pequena, e chama-lhe a sua querida infanta: mas a creança, que fez agora trez annos, tem uns ares tristes que fazem scismar.
—Adivinhará as lagrimas da mãe?—aventou o marquez—Ou seria concebida em estação amargurada...
—Lá como ella foi concebida não sei; são segredos de alcôva; mas a historia das damas dos reis não me fez conhecer uma só que se carpisse de ser mãe...
O mordomo-mór derivou a palestra em outro rumo, receando molestar o pundunor do ministro lançarote de el-rei.
Era Antonio de Cavide tanto das entranhas de D. João IV que, se o leitor leu em a [Nota 6.ª] o testamento do rei, trasladado dos apontamentos originaes, veria as referencias com que o seu real amigo o recommenda á consideração da rainha. Arguiam-no os aulicos de ser o medianeiro dos amores illicitos do monarcha. Da açafata D. Justa Negrão segredava-se na côrte que fôra elle o corruptor á custa de infames alliciações, necessarias a vencer a indifferença e até a reluctancia da criada do paço. Fôra ainda Antonio Cavide o agente da profissão de D. Justa no convento de Chellas, e em caza d'este secretario se estava creando a filha d'esses amores, em que a victima violentada ganhára vestir a mortalha monastica, volvidos dois annos, mais que longos, para o regio fastio de sua magestade ([Nota 19.ª])
Este secretario de estado, raramente referido nos historiadores do reinado de seu real amo, exercia attribuições, segundo parece, nas coisas secretissimas do rei, não lhe sobrando vagar para as do estado. Ainda assim, do testamento do monarcha deprehende-se que nenhum homem gosou como elle a confiança do rei até á hora final. Rodados vinte e seis annos, achamos Antonio Cavide condemnado á morte, na regencia de D. Pedro, como conjurado na tentativa de rebellião a favor de Affonso VI, prezo na Ilha Terceira. E dado que dois modernos historiadores[3] nos dêem Antonio de Cavide executado em Lisboa em 1673 é bem de ver que não colheram idoneas informações de escriptores coevos. Carlos II de Inglaterra, enviando, a rogos de sua esposa D. Catharina de Bragança, um navio a Lisboa com embaixador expresso, a pedir o perdão do velho secretario de D. João IV, logrou salval-o do patibulo; mas, decorrido breve termo, Cavide morreu com suspeitas de empeçonhado por insinuação do regente.
XII
Maria Isabel, querendo passar a Castella, offereceu os seus predios da Tanoaria a varios compradores que lh'os haviam desejado; mas a alienação dos bens seria nulla sem consenso do marido, e nulla tambem em quanto elle não houvesse respondido á justiça, que o esbulhára dos seus direitos.
Recorreu a dama ao mordomo-mór, que não antevira o embaraço, nem podia removêl-o. A consternada senhora sahiu do gabinete do marquez, desattendendo os prudentes conselhos que tendiam a esperar alguns dias o resultado da intervenção de um ministro mais influente no real animo. O mordomo-mór lembrara-se de Antonio Cavide. Maria Isabel lembrara-se de D. João IV.
Seguiu d'alli, com a filha, para o paço da Ribeira, e entrou no Arco de Ouro. Debaixo da arcada estava a Porta da Campainha. Chamava-se assim porque debaixo d'aquelle arco havia entrada franca de serventia para uma casa onde estava uma roda, como a das portarias monasticas, e sobre a roda uma sineta que tangiam as pessoas que procurassem el-rei. E, logo que a campainha tocasse, D. João IV enviava alguem a reconhecer a pessoa, ou descia propriamente, se esperava ser procurado por aquelle meio menos ordinario.