Quantas vezes tem elle repetido:
—«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi O romance d'um homem rico!»
Carnaxide, 1 de julho de 1889.
Thomaz Ribeiro.
[PREFACIO DA SEGUNDA EDIÇÃO]
Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica, lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver, soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não sabia gastar melhor e mais aproveitados.
Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão glacial da desfortuna.
Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.
Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios, quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça: deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.
Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos balsamos dôces.