—É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma tesoura...—disse o feitor.
—A minha carruagem depressa aqui!—bradou Alvaro—Ajudem-me a transportal-a.
Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para Lisboa, a passo.
A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:
—Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre, quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei sempre...
Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se um sorriso, e murmurou:
—Um cadaver...
Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor, e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.
E contemplou-a.
Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios, restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não guardou lembrança.