Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro, conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas não para ella.
É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.
Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...
O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa, estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos rancorosos do velho odio civil.
Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar. Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua residencia para a quinta do valle de Santarem.
Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia d'elle e de sua mãe.
—Se não podes dar-me vida, Alvaro—dizia ella—que vem aqui fazer esta gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido, meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou, estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo, Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora feliz!...
—Feliz!...—atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.
—Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade, passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra, ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?
Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas. Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe: