—Queira dizer.
—Leonor tinha reminiscencias magoadas, ou mesmo saudosas d'um passado, anterior a trinta annos?
—Não sabemos—respondeu promptamente a prioreza—o que podemos dizer-lhe é que Leonor, logo que entrou n'esta casa, quiz que as suas criadas lhe chamassem Magdalena.
Pensei na palavra, e puz ponto na minha curiosidade.
Já fóra da portaria do convento, meditei no que teriam sido vinte annos de horrivel immobilidade, de paralysia, com o coração vivo, e o fogo da indole e do instincto inextinguivel n'elle. Não me entendia com o mysterio de semelhante conversão.
Alheado n'estes pensamentos ingratos e inconcludentes, ouvi uns sons de orgão, cuja toada vinha do templo do mosteiro. Retrocedi, entrei na igreja, ajoelhei, orei, e tudo comprehendi, encarando no retabulo de um dos altares. Era o painel significativo da contrição de S. Pedro; e, á orla inferior, li estas palavras: Flevit amàre: CHOROU AMARGAMENTE.
Os infelizes chorem, que á ultima lagrima da penitencia segue-se a primeira da santificação.