A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora, a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata, a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora, loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.

Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso; não cabe nas leis da normalidade.

Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas cezareos,—os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias realengas:

«Mecenas atavis œdite regibus»

outro, cantando apotheoses divinas:

«Deus nobis hœc otia fecit.»

Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando lhe estrophes accommodaticias.

Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio. Raras vezes pegou a enxertia; é certo.

O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma, estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao menos—apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os perigos;—Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue apagar a fogueira d'um auto de fé por um acto de fé, ou de prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o virus-rabico expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,—heroe sem hymnos!—á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra para devassar os segredos da erupção vulcanica.

Quantos insensatos!