Depois da meia noite, é que o gloriosissimo santo não quereria de certo tal camaradagem. Os poemas rebentavam já, não da vehemencia do coração, mas da exuberancia do espirito. Qual este espirito fosse, vae dizel-o um dos proprios inspirados.

Era este o abbade Mormo, de Villa Real, inimigo do seu patricio Mesquita. Nunca se haviam encontrado em outeiro d'onde não sahissem mal-feridos de estocadas metricas, e desafiados para o outeiro proximo. Mesquita era filho d'um cortador de carnes, e gastara muitos milhares de cruzados para conseguir cartas de bacharel, que a estulticia do tempo não concedia sem attestados de sangue limpo. O ingeneroso Mormo mais de uma vez, em redondilha maior, alludira cruelmente á filiação de Mesquita, e este como desforço unico, lancetava a devassidão do abbade.

O doutor Mesquita foi vexado do demonio da satyra mais cedo que o seu patrício Mormo. Os remoques eram já pungentes, como este:

Já cede Pégaso o passo,
Escoucinha, espirra, e rincha,
Ouvindo ornear o pechincha,
O abbade sujo e devasso, etc.

isto o concitavam as gargalhadas de alguns seus contemporaneos; e a mais se prostituiria a musa alcoolisada, se um mote não viesse impôr aos poetas mais respeitosa linguagem. Era o mote:—«A melhor de entre as preladas.»

O abbade Mormo ergueu-se de sobre uma alfombra de relva onde parecia sopitado, e bateu as palmas, apenas soou o mote.

—Lá vai!—disse elle—A melhor de entre as preladas.

Boas noites! vou-me embora;
Já não posso estar com somno,
Nem me apraz soffrer o mono,
Borrachão a toda a hora.
Oh! quanto melhor lhe fora
Ter as facas amoladas,
E ir cortar as colladas
No outeiro sanguinoso,
Em quanto eu louvo ditoso
A melhor de entre as preladas!

Não podia ser mais nú o insulto ao filho do magarefe! A multidão riu muito, salvo os partidarios de Mesquita. Este, espicaçado pelos glosadores da injuria, procurou o velho abbade entre a populaça, que o victoriava, e remetteu com elle a murros fechados. O aggredido não podia com o adversario; mas sobravam-lhe alli admiradores que o defenderam, immolando-lhe o nariz contuso de Mesquita. Acudiram os amigos do doutor, e a briga assanhou-se entre os dous partidos a ponto de ficar despejado o pateo do mosteiro. As freiras de compleição mais debil desmaiaram. As noviças fugiram das janellas para não insultarem com o riso as monjas velhas. As criadas estendiam as bugias e lanternas fóra das grades para alumiarem o terraço, onde estalavam as bordoadas ora nos paus, ora nas cabeças com um som mais surdo. As lages do pateo estavam juncadas de chapéos e capotes. O reboliço afastára-se em turbilhões cujo alarido redobrava o terror. A prelada ordenou que se apagassem as luzes, e mandou tocar a silencio. Meia hora depois, os poetas e os demais hospedes do mosteiro voltaram á hospedaria conventual, e passaram o restante da noite em regalado somno, excepto os dous conegos bracarenses, que d'alli se partiram logo para suas casas com as melhores odes ineditas, e sem chapéo. O doutor Ferro, como estivesse já na cama, e soubesse que os conegos não voltaram, nem voltariam ao outeiro das seguintes noites, ergueu-se de golpe, e de pé sobre a cama, com um lençol sobre as espádoas, lançado em fórma de clamyde grega, e os cabellos descompostos, improvisou um soneto, que começava assim:

Altissimo Senhor, que tudo pódes!
Transfigura em cajadas os cajados
Que pozeram em fuga os desalmados
Estomagos, que tem só vinho e odes
. . . . . . . . . . . . . . . . .