Que dôces rullos rulla aquelle pombo
A pomba enamorada e toda secia!
Cuidado! que a virtude soffre um tombo,
E vamos ter alguma peripecia!
Miguel de Sotto-Mayor, posto em riso pelas chufas da plebe, azedou-se contra o repentista portuense, e quiz desafial-o. Intercederam as senhoras religiosas, conscias do conflicto, e Leonor pediu com ellas, dizendo em voz de quem manda e não pede:
—Faça o que eu lhe digo, senão não sou sua amiga.
Ora o Ferro, que fingira escassamente entender que o desafiavam, apasiguada a sanha do trovador de Villa do Conde, deu mostra da sua impenitencia n'um soneto de cujos tercetos resta memoria:
. . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tão negro quadro meu pincel não toque!
Calcarem do perdão as santas leis,
Matarem-me por causa d'um remoque!...
Que homem tão cruel, ó Deus, fazeis!
Se me elle ao ventre aponta o agudo estoque,
Que diluvio de vinho e de pasteis!
Não averiguei as innocentes manhas de que usou Leonor para sahir da roda das senhoras, e sumir-se entre as criadas, que conversavam em prosa com os seus conhecidos, em janellas afastadas dos pontos concorridos. Miguel de Sotto-Mayor devia ter aviso d'esta mudança, porque desalojou tambem do local dos seus triumphos, dando a desconfiar de que sahira estomagado das facecias do doutor Ferro. As criadas convisinhas de Leonor ouviram este breve dialogo entre a menina e o poeta:
—D'aqui a uma hora vamos para Lisboa—disse ella.
—Para nunca mais nos vermos?!—respondeu elle—Este outeiro foi-me fatal! Permittisse o céo que os meus olhos se fechassem antes de eu vos ter visto, Leonor!
—Póde ser que eu vos torne a vêr; mas vós me esquecereis quando me não virdes!
—Primeiro esquecerei a vida, sentirei morrer o coração devodo de saudades. Jurai-me um eterno amor! Promettei escrever ao infeliz poeta, que, d'ora em diante, contará pelas lagrimas os minutos da existencia.