PETRARCA (Rime).

Em breves termos darei conta do viver de cinco annos em casa de Manoel Teixeira de Macedo. Seria talvez do agrado do leitor a historia minudenciosa dos menores actos, que naturalmente se encadearam para reflorir a primavera de Maria da Gloria, e adoçar o agro que uma supposta deshonra devêra ter instillado no animo do banqueiro. É um engano. As primaveras da alma, se a aza negra d'uma tormenta as esfolha, nunca mais reverdecem; e os algozes, que afiam o gume de seu orgulho para lhe immolarem sem piedade as victimas, a si se golpêam, e tal chaga abrem de remorso que nem o balsamo do arrependimento a cerra.

Maria da Gloria, ao entrar em casa de seu marido, lhe disse a elle, sem testemunhas:

—Recebes em tua casa uma tua irmã, meu amigo. D'esta casa dá-me um quarto ao pé do quarto de teu filho. Se isto me concederes, enches o meu coração ambicioso: nada mais quero; e violentar-me a acceitar mais do que isto é mortificar-me. Acostumei-me á clausura: hei-de continual-a aqui. Se me lá era penosa por me Deus abençoar com o ardente amor de mãe, aqui, na tua casa, serei feliz porque tenho commigo tudo que me prendia á vida pela esperança. Não me leves á sociedade, nem me peças que a receba n'esta casa. Ser-me-ia doloroso contrariar-te, ou contrafazer-me. Não alteres, tu, Manoel, os teus habitos. Continua a ser o que eras antes de me ir buscar para a tua companhia. Nada te pergunto do teu passado, nem quero que m'o digas: basta que eu o tenha ouvido da malevola curiosidade de pessoas, que, ainda ha quinze dias, te absolviam a ti para me infamarem a mim. Isto bastaria para eu odiar o mundo, e presar viver em odio d'elle. A tua bondade tem-me ouvido com indulgencia para ser em tudo generosa. Dás-me assim a vida, que te peço, de portas a dentro?

—Vive como quizeres, Maria—respondeu Teixeira com semblante magoado—Hei-de obedecer a quantas condições estipulares, se d'ellas depender o teu bem-estar. Disseste-me que eras, em tua casa, meramente minha irmã.

—Tua irmã.

—Confirmas o que já me tens dito: o teu coração morreu para mim.

—Coração de irmã não é coração morto, meu amigo. A esposa has-de conhecel-a nos extremos com que ama teu filho, e na estima respeitosa com que ha doze annos te presava. A mesma te sou hoje e serei sempre.

—Comprehendi... Serás obedecida, Maria. Não me revolto contra o castigo: descontar em amarguras a culpa é allivio de remorso nas almas, que não estão de todo pervertidas. Acceito tudo.

E cumpriu religiosamente.