O fidalgo de Monção, no dia seguinte, disse a Antonio Joaquim:
—Que julgas tu que sou capaz de fazer por aquella mulher?
—Asneiras superiores ao meu calculo—respondeu o meu discreto amigo.
—Arrebatal-a, e estrangulal-a, se me perseguirem e eu me vir em risco de a perder.
—Vês?—tornou Antonio—ahi está uma parvoiçada a que não chegava o arrojo da minha imaginação! Arrebatal-a e estrangulal-a!... Não és rapaz de meias medidas. Faltou-te, no programma, enterral-a. É preciso enterral-a; e depois uma sangoeira de vampiro. Vaes por noute morta ao cemiterio e sugas-lhe as arterias.
—Não podes entender-me: és bom rapaz; mas não conheço coração mais estupido que o teu!—atalhou o academico, com um surriso em que reçumava o despeito delicado.
—Não é estúpido, quanto cuidas—contradisse gravemente o meu atilado amigo.—Tem um vicio que vocês alcunham de estupidez: o vicio da virtude. Condemno com quanta sinceridade posso essa cruel brincadeira que tu chamas fatalidade. Já me disseste que é casada a mulher.
—Que me faz isso a mim?!—obviou Nicoláo sem tergiversar na pròtervia da refutação.—Eu sei lá o que é ser casada a mulher onde está uma alma que me pertence?
—Então a alma da mulher de um tal Innocencio pertence-te?!
—Não zombes!