No entanto, a velha saiu da janella, e a nova, retraindo-se um passo, ficou de modo que era vista, entre as duas portadas que iam fechar-se. Nicoláo esperou que ella desapparecesse detraz dos vidros e saiu.

—Careço de um confidente—disse elle de si comsigo no dia immediato.—Arrisco muito; mas, se o não tiver, posso perder tudo. É questão de vida ou morte para mim o desenlace d’isto. Dou punhados de ouro para que ella saiba que eu heide matar-me na hora em que me disser que me não ama. Onde irei comprar um medianeiro?

Chegava o marceneiro ao hotel do Pexe, na Feira das Caixas, com gallegos carregados de mobilia. Nicoláo não sabia ainda para que comprára cadeiras e canapés, tremós e commodas. Mandou arrimar as alfaias no pateo do hotel. Chamou ao seu quarto o artista, pagou sem glosar a somma das parcellas, entrou em conversação com o homem, e abriu-lhe margem a contar-lhe sua vida. João Ferreira tinha duas filhas casadas com officiaes do seu officio, e a terceira estava para casar com um regente de um cartorio de escrivão de direito. O regente queria que elle dotasse a filha com uma mobilia completa de sala e dois quartos.

Lastimava-se o pae de não poder dispender-se em mais duzentos mil réis, importancia dos trastes. Nicoláo de Almeida poz-lhe a mão no hombro e disse:

—Senhor João Ferreira, a mobilia de sua filha está no pateo d’este hotel. Faço-lhe presente d’ella: mande-a buscar, que me dá n’isso muita satisfação.

—Pois vossa excellencia...—tartamudeou o artista.

—Disse. Mande-a buscar. Se não for bastante; e á vontade do seu futuro genro, augmente-a por minha conta.

O marceneiro quiz beijar-lhe a mão e abraçar-lhe os joelhos.

—Então vossa excellencia não precisava dos trastes..?—exclamou elle, fitando-o penetrantemente, como se lhe dissésse: «já entendo...»

—Não: digo-lhe, sem receio de que me denuncie, que não precisava dos moveis. Fui a sua casa para ver a senhora que móra de fronte...