A resistencia foi energica e indelicada; mas, ao verem que Luiz de Pinhel desistia despeitado da benevola pretenção, convieram em consistorio os paes e tios que se deixasse ir o menino; que tanto montava acrescer-lhe ao seu dote de bons cincoenta contos o triplo d’esta quantia.

—De maneira, dizia o pae, que o nosso rapaz vem a ser o homem mais rico do Porto, e juntará a fortuna que teria, se os ladrões dos francezes lhe não roubassem ao avô quinhentos mil cruzados, não fallando no juro desde 1808 até hoje, que já lá vão vinte e oito annos. Vejam vocês p’ra onde isto deitava!

O rapaz, porém, não ia de vontade para o Pará. Cada vez que a pequenina Thomazia lhe dizia: «Então tu vaes-te embora, Innocencio?» o menino debulhava-se em lagrimas e dizia entre arrancos que era a mãe que o mandava. As senhoras presenciavam consternadissimas este lance, e não podiam ter o pranto.

Um dia chamaram ellas Luiz de Pinhel para espreitar como as duas creanças se abraçavam a soluçar. O tio condoeu-se, e disse muito commovido:

—Agora, minha irmã, sou eu que peço, e ordeno, se fôr preciso. Innocencio não vae. Se eu morrer, cá lhe vem dar o que fôr meu; se eu viver, irá mais tarde, quando lhe chegar vontade de vêr mundo.

E chamando a si os pequenos disse-lhes cariciativamente:

—Brincae, meninos, brincae; que eu não te levo o teu amiguinho, Thomazia. Lá virá tempo em que a ambição ou o amor vos apartem...

Thomazia sorriu-se e levando o irmão de parte, segredou-lhe:

—Não sabes, Luiz, que muitas vezes a gente tem pensado em os casar? Estes já não se apartam...

—Isso é muito possivel; e, se elles vão n’este affecto, chegados á idade, não ha mais que leval-os á egreja; que bem casados levam elles já os corações. Mas olha, Thomazia, que não ha fiar n’estas affeiçõesinhas. Eu conheço alguma cousa o mundo, e por isso andei sempre por longe d’elle, e mettido cá no meu trabalho, por não saber em que havia de gastar a vida, que bem depressa gastei... Estas creanças que brincam, em começando a olhar seriamente uma para a outra, já não acham gosto ás brincadeiras da meninice. Depois, cada qual trata de procurar cousas e affeições novas, porque o coração humano é assim. O moço não tem o coração do menino, nem o velho o coração do moço, percebes? O que eu te quero dizer é que não vás tu por engano casal-os muito cedo, sem elles saberem o que fazem nem o que querem. É muito perigoso que, na idade de saberem o que são e hão de ser até á morte, se não submettam ás obrigações para que a sua razão não foi consultada. Entretanto, Deus os faça tão bom homem e digna mulher como são bons e amigos em creanças.