Eil-a bella quanto póde imaginal-a a mais artistica e ambiciosa fantasia. Faltava, porém, alma e luz n’aquelle rosto, porque as imperfeições, embora poetas e romancistas as esqueçam, são inevitaveis. A estatua de certo tinha vida bastante para valer em tresdobro da Galathea e das notorias Venus de innocente marmore; todavia, a glacial placidez do semblante, se não fosse natural, deslustral-a-ía com umas sombras de desvanecida e concentrada na contemplação de si mesma. Não era; e que fosse, ainda assim daria muito que invejar ás poucas a quem a prodigalidade do destino concedeu peregrino rosto e adoravel alma a transluzir-lhe em olhos e sorrisos; que alteza de pensamento e profundidade de conceitos isso não vale tanto á mulher bella como quatro flôres do campo nos cabellos.

Thomazia ganhára fama, bem que os pregoeiros da sua formosura escassamente a vissem nas egrejas, nas procissões, nos camarotes da 3.ª algum domingo de tarde, e uma ou outra vez nas hortas do Reimão, onde Gervasio José costumava desde menino ir merendar sob a folhagem das parreiras. Se o apetite lhe faltava e o cirurgião lhe formulava oleo de mamona, dizia elle á familia:

—Bem sei... Vamos ao Reimão merendar uns linguados com a respectiva salada. O meu oleo de mamona é o verdasco de Basto ali tirado da pipa, e quatro azeitonas de Sevilha.

Apesar das precauções do avisado enfermo nos lanços da preguiça de estomago, Thomazia era vista dos peraltas que ainda em 1841 se não pejavam de apear de seus cavallos e carruagens á porta das tavernas do Reimão e Barros-Lima.

Se o commerciante reparasse nos seus confrades da medicina do linguado e da azeitona, podia vêr alguns d’elles caracolando os ginetes que lhe pateavam sonoramente a testada da sua casa nas Cangostas.

Elle, de certo não; mas a sua afilhada, menos mal servida de reminiscencia, reconhecia trez ou quatro dos cavalleiros que uma vez e diversas vezes tinha visto nos bucolicos festins do padrinho ou nos festins espirituaes da madrinha mui devota do Senhor-exposto de Bello-Monte e da Misericordia.

Isto, porém, não desluz nem mareia a candura de Thomazia. Era um acto de memoria e mais nada; acto, porém, que não condizia com a frouxa faculdade de reter a taboada salteada. Ha compensações; é o que é. Ora agora, que a senhora D. Thomazia de Barros (o dom começou a honorifical-a ahi por 1840, anno em que seu marido foi da camara) que a senhora D. Thomazia e suas cunhadas e marido não tinham sombra de suspeita da leviandade da menina, é bem de entender, sendo tal e tão crescente o amor que lhe davam.

Ahi por volta dos dezeseis annos da moça, a familia Barros congregou-se em sessão, cujo memento se infere de terem descido ao escriptorio de Gervasio. Se um caso desatado da historia podesse ser contado aqui, sem enfado de quem lê, diriamos que Thomazinha, vendo-se só e ouvindo estrupiada de cavallo, entreabriu as portadas da varanda, e por um resquicio espreitou o cavalleiro até á revolta da rua para o largo de S. Domingos. Está averiguado que elle a viu tambem com olhos satanicos; mas ella, por sua parte, ficou illesa e quieta de coração. Quando é que a lua, nas alturas onde os poetas lhe mandam declarações de amor, se deu por offendida ou perdeu tanto como isto da sua proverbial castidade? Thomazia podia pleitear isenções com a lua n’este caso e vencel-a em muitas qualidades amaveis.

Desçamos ao escriptorio.

É proposto e não discutido o casamento de Innocencio José de Barros com a ditosa menina. Divergem ainda assim os pareceres, no tocante ao prazo da realisação. Os tios Jeronimo e Felizardo opinam que o rapaz está muito novo. As tias Sebastiana e Florencia abundam n’este parecer; mas Gervasio, bamboando trez vezes a cabeça como quem prefacía uma revelação ponderosa, diz: