—Que hei de eu dizer?... Estava a pensar no que meu irmão me disse quando cá veio... Homem! e se elle não gosta da nossa afilhada? Amisade é uma coisa, amor é outra... Achas que o nosso filho, se quizesse casar com Thomazia, andaria lá com esses namoros que dizes?...

O marido surriu-se, e, por entre os beiços velhacamente franzidos, murmurou:

—Namorar não é casar... Vocês são mulheres, e não sabem nada do mundo... Eu cá me entendo... O rapaz, já lhe disse, é como os outros do seu tempo. As raparigas desafiam-n’o; elle que lhe ha de fazer?

—É não lhe dar trela!—respondeu pressurosa a senhora D. Thomazia.

—Valha-te Deus, mulher!—redarguiu o esposo, editando segunda vez o surriso sôrna e justificativo de que o homem não resalvára a sua innocencia da peste contemporanea—valha-te Deus! Um homem é um homem. A culpa não n’a tem elles; são ellas. Eu cá me entendo... Se o rapaz fosse creado com as leis e costumes de ha quarenta annos, os namoros custavam-lhe um par de trochadas boas; mas hoje em dia não ha rei nem roque logo que elles asneam. O mais prudente é um pae leval-os ás boas; se não, quando um homem mal se percata, está-lhe em casa o juiz e o escrivão com um requerimento lá de uma trocatintas que lhe tira o filho de casa e o leva para a sua. Isso está-se vendo, e medo não me falta a mim; por isso me tenho posto á espreita, e não faço bulha, que não vá o rapaz atirar dois couces ao apparelho, e por aqui me sirvo. Só aqui ha dias lhe disse: «Innocencio, tem-me lume n’esse olho: não faças cavallada. Olha que as moças que te fazem festas, o que querem é o teu dinheiro; mas vão erradas; que eu o que tenho, posso perdel-o; nemja que um filho m’o leve para onde eu não quero que vá o suor de teus avós, entendes, Innocencio?»

—E vae elle que disse?—interrompeu com alvoroço a senhora D. Thomazia.

—Nem uma nem duas; sentou-se ali áquella mesa e esteve a riscar com a penna sobre o papel uns narizes que ainda lá hão de estar. Aqui teem vocês o que se passou. Agora estou resolvido a dizer-lhe que é minha vontade que elle se case com Thomazia. Se sim, bem estamos; se disser que não... veremos.

—Se elle disser que não,—obviou a esposa bem aconselhada pelas advertencias do mano Luiz—acabou-se; á força não quero casamentos.

Discutiram detidamente os dois conjuges e vieram afinal em que, por suaves modos, se consultasse a vontade do moço.

A vontade da orfã não foi discutida. Discutir o coração da pobre... para quê?!