—Ai!—gemeu Thomazia.

—Deixe dizer o mais, e não se afflija que homens não faltam, menina. D’ali a pouco fui ouvir outra missinha aos Congregados, e quando saía para ir resar aos Clerigos vi o tal Guimarães á porta de um botequim que está nos baixos dos frades, sim dos frades que lá estavam quando havia religião, e estava elle no meio de outros a ler um papel, e os outros a dar gargalhadas.—Querem vocês ver, disse eu cá comigo, que o berzabum do patife está a mostrar a carta da minha Thomazinha? Vou espreitar... E fui muito escorcemelada com a parede, e metti-me n’uma porta, d’onde ouvia tudo. Meu dito, meu feito! Era a carta da menina...

—Ai!—espeitorou a anciada moça, pondo as mãos lindas sobre o alto seio que parecia beijal-as ao levantar-se nos arquejantes éstos.—Era a minha carta?!—exclamou ainda Thomazia, levando as mãos ao rosto.

—Era, era, filha; mas não chore, que os ditos da menina, não n’a envergonham.

—E que diziam os outros?

—Olhe, quando o bregeiro lia aquillo que dizia: Dizei-me se quereis já, já unirse-vos a mim pelos sagrados laços de... de que era que a menina dizia lá?... do jubileu ou coisa assim... os outros até davam saltos a rir-se, e dizia um:—Oh! que burra!—e outro berrava: «Eu quero ver essa mulher das Cangostas; dá-me essa seresma por piedade, Guimarães!»... a chamarem-lhe seresma aquelles canalhas! Ai, menina! As lagrimas saltaram-me como punhos!...

Thomazia menos ferida no coração do que na vaidade—não já de redactora de cartas, senão de mulher que a si mesma se via digna de respeito no seu amor—chorou agora tão sincera e amargamente, quanto dois dias antes fingira lagrimas deante do padrinho. As operações da Providencia!

Custodia continuou:

—Não chore, meu anginho, não chore, que me parte de meio a meio o coração!

—E tu a dizer-me—soluçou a orfã—que os santos te tinham mandado o meu noivo... Se não fosse isso, eu não caía em lhe escrever...