«N'um lagar d'uma quinta sua, escondida atraz d'uma pipa, no mais puro arrobamento do amor com...—meus illustres avós! perdoai-me a revelação!—com um dos gallegos que tinham vindo á vindima. E que pedaço de gallego!
—Que se seguiu? mataram o bruto?
«Qual matar o bruto! O bruto tinha um direito sagrado á sua existencia. Minha prima foi interrogada pelo irmão, seu tutor, e respondeu que havia de casar com o gallego.
—E casou?
«Casou, e vestiu-o de casaco, e botas de cano alto, e chapéo de sêda, e, o que mais é, meu primo gallego parecia depois um hespanhol. Se o vires hoje, não dirás o pessimo texto que está n'aquella encadernação.
—E ella ama-o?!
«Essa admiração é sufficientemente parva! Ama-o{23} como o amou sempre, bebe a felicidade dos labios delle, pendura-se-lhe, em delirios de ternura, das largas espaduas, aperta ao coração a cabeça amante do conjuge inseparavel, não receia uma deslealdade, desconhece o ciume, produz o mais mechanicamente que se póde, rapazões robustos, vermelhos, e gordos como teixugos; em fim, para te dizer tudo d'uma vez, minha prima está gorda, come tanto como elle, e faz as suas digestões na suave beatitude da mulher ditosa, com os olhos postos no marido. Faltava-me dizer-te que esta creatura angelica, antes de ser encontrada no lagar, era d'um melindre d'orgãos, e d'uma susceptibilidade de emoções, que fazia receiar muito pela sua vida.
Lia novellas de La-Calprenéde, Genlis, e Radcliffe. Chorava enternecida, fitava no céo os olhos lacrimosos, pendia a fronte, contristada, tomava parte nas dôres das suas heroinas, e muitas vezes me disse que a cópia do seu modêlo, a realisação das suas esperanças, estava no céo. Como diabo desceu do céo cá para baixo o gallego, isso é que eu não sei. Eu vivia persuadido de que o céo não importava aquelle genero.
Seja o que fôr, esta historia vem apêlo para exemplificar um dos muitos casos em que a boa philosophia nos ensina que um preto é um rival temivel. Posso enganar-me, nem ouso aventar uma calumnia; porém, a minha visinha não dá ares de quem procura no céo a realização das suas esperanças; e, se procura, quem me diz a mim que o preto não desceu de lá pelo mesmo alcatruz que pôz cá em baixo o gallego? Que me dizes tu a isto?
—Eu digo que não quero saber mais nada da tua visinha, e deixo-a ao preto em boa paz.