«Não me deitei. Estive toda a noite accumulando conjecturas, qual d'ellas mais desgraçada. Cheguei a abrir subtilmente a porta do meu quarto, para ir á cama da criada. Fui palpando ao longo d'um corredor; mas a porta que determinava este corredor, e nunca se fechara, encontrei-a fechada! Então, sim, comprehendi que meu pai soubera tudo; e d'ahi em diante estudei a maneira de fugir de dia. A ancia facilitava-me o passo. Resolvi sahir disfarçada com um capote de criada, até encontrar um rapaz que me ensinasse as ruas. N'esta esperança desafogou o meu coração. Esperei o dia; e, logo que senti passos, pedi que me abrissem a porta do corredor. Respondeu-me um criado que ia procurar a chave; e voltou, dizendo que a devia ter o snr. coronel porque ninguem dava noticia d'ella.
«Senti-me capaz de tudo. Tive odio a meu pai nesse momento, odio foi esse que o tempo não conseguiu desvanecer em minha alma. É que desde esse dia tenho chorado sempre, e o meu odio nutre-se de lagrimas... Senti até o desejo de matar a criada, que me atraiçoara. Desconhecia-me! Vi-me casualmente a um espelho, e os meus olhos tinham um fulgor sinistro, os meus labios pareciam crestados pelas palavras de maldição que passaram n'elles contra o meu tyranno.
«Abri a janella do meu quarto, com a intenção de fugir por ella. Morreria, se o tentasse. Recuei diante da{186} idéa da morte sem justificação aos olhos de Vasco e de sua mãi, que me chamara sua filha querida. Lancei-me aos pés da Virgem, que fôra de minha mãi, e ergui-me sem esperança, sem o allivio que Deus concede aos que supplicam a sua misericordia.
«Eram nove horas da manhã quando se abriu a porta, e entrou meu pai.
«Não escondi as lagrimas, e elle, fingiu que as não via.
—Leocadia, disse elle, vem ahi o almoço. Depois de almoçar, veste-te que vamos passar o dia a uma quinta de Campolide.
«Meu pai!...» murmurei eu.
—Que queres tu Leocadia?—disse elle com um ar de fria seriedade que me gelou as palavras, e sahiu.
«Vesti-me, fazendo sahir o taboleiro do almoço. Minha madrasta entrou no meu quarto, com affectado sobresalto, perguntando-me por que não almoçava. Disse que não podia, e ella retirou-se, passando-me a mão pela face, e dizendo com abominavel meiguice: juizinho, minha filha, juizinho.
«Indignou-me este carinho hypocrita como um insulto. Perguntei-lhe com altivez o que queria dizer a sua recommendação, e ella, carregando o sobr'olho, replicou: A culpa tem quem a quer fazer feliz, sua pobre soberba.