«Estas palavras tinham-me sob o peso d'uma fascinação dolorosissima. Levei machinalmente aos labios a mão que se me offerecia, e banhei-a de lagrimas. E eu não podia fallar, suffocada por soluços. Fazia-me compaixão o olhar aguado de meu pai; porém... não saberei dizer que terrivel qualidade de sentimentos luctavam em minha alma!... Entre a cabeça e o coração havia uma barreira insuperavel. O coração regeitava o amoroso perdão d'um pai despotico. A cabeça curvava-se diante da magestade das suas cãs, e mais ainda dos seus queixumes. Quando, porém, nesse instante, não senti extinguir-se o odio que me abrasára na manhã desse dia, é porque elle seria eterno, é porque o meu amor a Vasco era immenso, superior ao instincto filial, aos vinculos de sangue, e até á minha propria reputação.
«Não respondi. Cruzei as mãos na face, e não sei que tempo meu pai esperou a resposta. Elle tinha sahido de ao pé de mim, e voltou com um ramo de flores.
«Aqui tens, minha filha—disse elle—o ramo de paz entre nós. Ha-de haver dez annos que te dei um ramo{189} neste mesmo sitio. Foi quando vieste da provincia para entrares no collegio. Olha esse olmo que está atraz de ti e lá verás uma inicial e uma data. Já então scismei aqui muito no teu futuro. Prometti a mim mesmo trazer-te aqui, já senhora, para te mostrar essa data, que marca uma hora das horas attribuladas que só um pai, extremoso e pobre, sabe comprehender. Mal diria eu então que a minha segunda visita a este logar seria solemnisada pelas lagrimas de ambos nós! Repara que eu tambem choro, Leocadia.
«Ergui os olhos timidos para meu pai, e não pude conter-me. O resentimento calou-se um instante. Abracei-o com devoção, e, nesse instante... só o via a elle, só sentia por elle... a imagem de Vasco fugira por não poder vencer as cãs d'um velho soldado chorando...»
Neste momento, Leocadia suspendeu-se. A sua physionomia macilenta e descarnada pendeu para o seio. Uma lagrima das que vem ferventes do coração desceu-lhe na aridez da face, e sumiu-se logo como fio d'agua em terreno afogueado.
E eu, que nem hoje ainda posso, com animo frio, contar uma vida que me hão-de receber como chimera, chorava tambem.{190}
XIII.
O coronel, com palavras meigas, animára a filha a perguntar-lhe se o pai a violentava a casar com Francisco de Proença.
A isto respondeu o pai, mudando de tom: