Aqui está o que se chama um homem romantico e uma mulher desgraçada.{214}

XVIII.

Se bem me lembro, já disse que Leocadia é o nome que a mulher de Francisco de Proença adoptou, desde a scena do anterior capitulo.

No decurso do romance, conservei esse nome, e já agora conserva-lo-hei até final. Podéra ter-lhe dado pseudonimo; mas tão leal quero ser á verdade, que, a não poder, por melindre e respeito, dizer o seu verdadeiro nome, escrupulisei na invenção de outro.

Leocadia, pois, sahiu da Madeira para Lisboa. No mesmo navio viera Francisco de Proença, que, em todo o tempo da viagem, não deu signal de ser ao menos relação de Leocadia. Sahiram para o Porto no primeiro hiate. D'aqui, D. Leocadia e Thereza foram para a provincia. O morgado de Sinfães appareceu-lhe na despedida. Terriveis e de eterna condemnação foram as suas palavras: «Vá, sombra da mulher morta! vá, e veja sempre diante de si o punhal, que lhe espera nos labios uma palavra só... o meu nome, o nome de seu marido viuvo!»

A desgraçada quiz ajoelhar-se aos pés do seu verdugo.{215} Proença repelliu-a com um tregeito de escarneo e asco.

Leocadia foi viver no casal de seu marido. Era uma habitação mal reparada, sumida entre quatro montanhas.

Apenas chegou, foi recebida respeitosamente por um caseiro, que a reputava irmã bastarda, ou rapariga das affeições de seu amo solteiro. Leocadia perguntou a este homem porque estava a pedra de armas coberta de negro: respondeu o caseiro, se ella ignorava que tivesse morrido a esposa do fidalgo! Leocadia abraçou-se á criada, chorando, e disse: «É verdade... essa desgraçada morreu...»

O caseiro reparou n'isto, e disse á mulher que havia o quer que era de historia nos modos da senhora que viera lá de por ahi abaixo.

Leocadia entrou na cama, que lhe mostraram, e disse a Thereza que a sua ultima paragem antes da sepultura era alli.