E, no afôgo da minha saudade, embrenhei-me por aquella bouça que lá verdeja ao fundo, enchi meu coração de tenebrosas angustias, e pedi aos meus olhos o chorar do desafôgo.

Inutil, inutil foi o meu rogar, porque a minha dôr era como o encravar do estilete que não sangra; eu tinha dentro o brazido do deserto, sem gotta de pranto; era uma{217} contricção de matar, uma abafação em que os pulmões, batendo contra o coração, pareciam espedaçar-se.

E porque? É que eu amava muito aquella martyr, muito, com o amor tres vezes immaculado do poeta. Não esperava d'alli senão a religiosa affeição da victima paciente ao consolador que dera a sua vida inteira por um dia de ventura para ella. Mais nada; porém, este pouco é o ar, o tempo, a luz, a bemaventurança do desgraçado que encontrou na terra uma mulher como Leocadia, e uma paixão como a minha.

Tu viste, saudosa Poncia, que pranto ardente arou as minhas faces, no estio da existencia!

Nos tectos cavernosos do meu quartel reboaram longo tempo os eccos dos meus soluços.

Os meus dentes cerraram-se, como os do condemnado nas trévas inferiores, e tres dias e tres noites a minha lingua não encanou o bolo alimenticio.

A restea do sol de Setembro, mosqueando o taboado carunchoso do meu quarto, vinha pallida como a luz betuminosa dos infernos dantescos.

A brisa da tarde nunca mais se retouçou louçã pelas corollas das boninas tremulas.

Negra como a minha saudade, era negra a tunica funeraria de que a natureza se vestiu.

Diz tu, ó Poncia, se me viste comer ou beber durante oito dias, contados da data em que a minha alma se despegou d'aquella alma gentil que se partiu do Pastelleiro.