«Não quero nada...—gaguejei eu.

—Pois então, mude-se.

Eu demorava um pouco a execução do mandado solemne de despejo, quando o homem recalcitrou:

—Mude-se, ou eu o ajudo a mudar.

A ajuda, pelos modos, era uma pranchada de chanfana, que o nosso amigo deixou vêr por debaixo da fimbria do capote. Dispensei o auxilio offerecido, e retirei-me cozido com a parede, scismando nas bellezas appensas a uma noite de lua cheia á beira mar.

Ao cabo da viella parei, sustido por um pensamento negro. «Será aquelle homem um amante de Vicencia?!»{56}

O ciume deu-me intrepidez, quero dizer—a intrepidez de parar e esconder-me d'onde podesse espreitar a scena mais escandalosa de que o leitor tem noticia!

A janella abriu-se. Era Vicencia... conheci-lhe a voz! Não sei o que ella disse que fez rir o meu rival. Ouvi o soido de ferro que raspava no peitoril da janella! eram os ganchos d'uma escada. Ouvi o som cavo do embrulho de cordas a cahir na terra. Vi o maldito subir, coar-se pela janella, recolher a corda... e... maldição! maldição!...


E, desde essa noite nefasta, a minha fronte pendeu abatida como cabeça de estatua que um raio fulminou.