O senhor tambem sabe cantar a modinha das vivas chammas d'amor?
ELLE.
Nada, não sei.
ELLA.
Minha prima Carlota canta que é um regalinho ouvil-a.
Althea, mimosa Althea
Me maltractas com rigor,
E eu por ti ardendo sempre
Em vivas chammas d'amor.
Pois o senhor não sabia este soneto?
EU (mentalmente.)
É d'uma estupidez fabulosa! Ó pobre Bento, como estará a tua alma!... Haverá d'estas mulheres, passados trinta annos? Digo que não, em honra do progresso. Alguns annos mais, e Paulo de Kock, e Pigault Lebrun, e outros directores espirituaes, traduzidos em vernaculo, darão aos namoros de nossas filhas occasião de ouvirem menos tolices. Os que amarem em 1856, devem passar horas muito agradaveis! As mulheres de então, ricas de prendas espirituaes, saberão dizer toillette, rendez-vous, petit-point,{65} crochet, soirée, boucles, papier-satin, enveloppe, e outros ornamentos de lingua com que farão a sua maior, mais fecunda, mais grulha e tagarella. Com a superabundancia do idioma, augmentarão as idêas, na razão directa. A psycologia estará no auge. Mestre Spinosa e Kant encarnarão nas costas abauladas da prole de qualquer jarreta. A mulher saberá os escaninhos da alma como a abelha os do cortiço. Não haverá uma só que possa, com acerto, chamar-se tola. Perfeita de espirito, attenderá ás imperfeições corporeas, e descontente da massa insufficiente que o grande Artifice empregou na feitura d'ella, apropriar-se-ha o algodão necessario para que o Creador soffra um quinau. A mulher, correcta e augmentada, em alma e algodão, será o luxo da natureza, a boneca das creanças-decrepitas, o ouro cendrado no cadinho das humanas miserias, o melhor pedaço de carne e osso que Deus creou, a mais flacida aba de algodão e barbas de baleia que as manufacturas celestes podiam dar-nos.
ELLE (despeitado).