Bento de Castro, radioso de gloria, entrava em Villa Real, quando o primo Silveira, a quem ia recommendado, á frente d'um destacamento de caçadores 9, proclamava o snr. D. Miguel rei absoluto. O nosso amigo coadjuvava os gritos do marquez de Chaves, quando a soldadesca, instigada pelos officiaes, prorompeu em chufas e insultos ao commandante enthusiasta.
Silveira, receoso de que o prendessem, porque os officiaes gritavam «amarrem esse doudo!» deu de esporas ao cavallo, e desamparou o meu pobre Bento, que se viu em pancas. Os bravos da sua hoste, era para vêr como elles largavam os tamancos por aquellas ladeiras da Senhora de Almudena! Os gritos animadores do chefe perdiam-se entre os apupos dos soldados, que arremeçavam pedradas ignominiosas ás canellas nuas dos fugitivos.{90}
Bento achou-se só, sobre uma possante egua do seu futuro sogro, e vacillou muito tempo entre seguir o marquez de Chaves, ou as suas tropas, que desappareciam por detraz das collinas de Mondrões, caminho do Marão.
Venceu a honra; e o meu amigo, a toda a brida, pôde alcançar o Silveira a uma legua distante de Villa Real, na estrada de Chaves.
O marquez era estupidamente corajoso. A derrota moral que vinha de soffrer, não lhe arrefecêra o animo!
Queria elle chamar ás armas o povoleu das aldêas suburbanas de Villa Real, e accommetter de noite os soldados rebeldes. Bento de Castro, envergonhado da fuga, applaudiu o alvitre, e foi o primeiro a pendurar-se na sineta d'uma capella em Banagouro, tirando por ella com o frenesi das batalhas, e pedindo ao badalo a eloquencia do punhal de Bruto.
Correram ao alarma o tio Francisco do Quinchoso, o tio Thimotheo da Fraga, João do Reguengo, e Zé da Brigida dos Chãos, alferes da bicha, e cavalleiro do habito, alcançado por ter morto na serra do Mesio dous francezes em 1812.
Silveira sentou-se sobre o cabeçalho d'um carro, instaurou conselho militar, e, antes de proclamar, perguntou se seria possivel arranjarem-lhe um salpicão frito com ovos, e uma garrafa de vinho. João do Reguengo apressou-se a chamar sua mulher, que substituira o meu amigo na sineta, e mandou-a amanhar uma boa fritada de salpicões e ovos.
N'este comenos chega um postilhão de Villa Pouca de Aguiar com um officio para o marquez. Silveira não entendia a letra de sua mulher, e pediu a Castro que lêsse. Era a marqueza de Chaves noticiando a revolução de caçadores 7, e chamando a toda a pressa seu marido para a coadjuvar no movimento revolucionario. O marquez deu vivas á marqueza, ao bravo batalhão, ao rei absoluto, e{91} não esperou os salpicões, nem congratulou o patriotismo do padre Bento Tamanca que acabava de sahir da capella, de cruz alçada, chamando o povo ás armas.
O meu amigo teve a honra de cumprimentar a marqueza de Chaves, que veio ao encontro de seu marido, sobre um valente murzello, floreando a espada, e latindo guinchos de sedicioso enthusiasmo.