Antes querer, com as fraquezas do proximo, inflammar a phantasia com deslastres inexequiveis, do que premunir a razão contra as realidades; querer ignorar o mal verdadeiro, e ir com ancia através de oito volumes buscar o desfecho d'um romance, que extravasa a medida do mal possivel, é renunciar á verdade, perverter o gosto e a razão, crear um mundo que não existe, arriscar-se a todos os desatinos da excentricidade.
O meu romance não fará mal a alguem, não concitará o fogo d'alguma paixão perigosa, não arrastará victimas ao abysmo, cavado por uma idéa, e coberto de flores pelas seducções do estylo, e sophismas d'uma irreligiosa philosophia.
Não farei, como madame de Stael, pretenciosas Corinas, nem Oswalds melancolicamente piegas.
Não verterei nas almas o nectar libidinoso do Sophá de Crébillon.
Não farei mulheres tão gárrulas, tão bacharelas, tão fortes da sua philosophia como a Heloisa de Rousseau; e ao cabo de contas, tão flexiveis, tão dadas aos lapsos da humanidade, como qualquer costureira que não leu o Plutarcho, nem o Tasso.
Não direi, como Gœthe, aos infelizes que se matem; e, se fôr necessario, provarei que Werther foi um tolo, se{100} existiu; Gilbert, Malefilatre, Labras, Moreau, Escousse, Leopold Robert, Larra, Gerard e Nerval, Jorge Arthur[3], não foram mais espertos que o seu modêlo.
O meu romance, em fim, aconselha a todo o mundo que coma e beba e durma o melhor que podér. Protesta contra as paixões sérias, e quer que a humanidade se submetta pouco mais ou menos aos artigos dos estatutos dados pelo Creador a todas as alimarias do universo. Detesta a philosophia que faz os homens maiores ou mais pequenos do que elles são. Abomina os escriptores que precisam enganal-os para engrandecel-os. Sejamos do tamanho que nos deu o primeiro barro: não nos persuadamos que o barro d'uns foi amassado em agua choca, e o d'outros em Champagne. As paixões são de todos; uns cahem n'um tremedal, outros n'um diwan de molas estofadas. Todos cahimos. Cahiu David e Sardanapalo, cahiu Cleopatra e Margarida de Cortona; depois da queda de Hermenigilda, nascida e baptisada em Amarante, não ha nada seguro n'este mundo.
O leitor póde passar em claro este capitulo XVIII, que não diz nada importante. O que vem é de certo o melhor de todos.{101}
[3] Jorge Arthur é um nome portuguez. Suicidou-se em Janeiro de 1849, no Porto, precipitando-se da ponte-pensil sobre o Douro. Tem um monumento no cemiterio do Repouso, com o seguinte epitaphio que não diz nada:
Saudade perennal, geme, e avalia
Thesouro de que é cofre a sepultura.