Pantaleão, atordoado pelas invectivas, só depois de ouvir a cousa clara como ella era para todos, é que sahiu do torpor, e fez menção de pegar d'um bacamarte para arcabusar a filha.

D. Mafalda susteve-lhe o rancoroso assômo, e pouco e pouco persuadiu-o de que o couce seria mais mortal que a queda. Disse-lhe que escrevesse a Bento de Castro para que immediatamente viesse esposar sua filha. Pantaleão{104} preferiu escrever-me a mim chamando-me a Baião, onde cheguei cinco dias depois desta pathetica scena, que, de certo arrancou lagrimas aos que as podem ainda chorar por motivos de amargurada poesia.

Eu ainda hoje as vêrto caudaes nas rugas da tez, quando me lembro a postura afflicta de Pantaleão no momento em que entrei no seu quarto. Estava de cocoras sobre a cama, lendo a gazeta de Lisboa, e vociferando pragas contra o Saldanha, em quanto o preto tirava os carrapatos d'uma cadella perdigueira que tinha a cabeça na travesseira do amo.

O venerando ancião, quando me viu, mandou sahir o preto, e fallou assim:

«Snr. João, saberá que o seu amigo Bento de Castro é nada menos que um bregeiro!

—Como?! V. exc.ª dá similhante titulo a um cavalheiro que vai ser seu genro?

«É um bregeiro, e se não, faz favor de olhar para minha filha.

—Não entendo! Ja tive o gosto de a comprimentar, e ella nada me disse.

«Repare-lhe n'aquellas ilhargas, snr. João!

—Nas ilhargas! que quer isso dizer?!