II.
O meu amigo Bento de Castro veio, uma noite, de Mathosinhos, de casa do Brito, onde perdera, á banca portugueza, vinte moedas, um cavallo, um relogio, dous anneis com brilhante, e ficára a dever outro tanto. Ás 2 horas, bateu-me á porta, sentou-se na minha cama, e começou assim um pathetico discurso:
«Tenho dado cabo de mais de ametade da minha legitima. Não tardará o dia em que meu irmão me dê de comer como se dá uma esmola. O jogo tem sido o meu abysmo. Perco o dinheiro e perco a vergonha, quando o azar me é contrario. Hoje, vendi cavallo, relogio, anneis, e tudo: cheguei a pedir dinheiro ao moço de farda da casa onde joguei. Quando vinha para cá, alli no castello do Queijo, tive vontade de atirar ao mar com esta vida diabolica!... Se o não fiz, outra vez será. É no que ha-de parar este negro fado que me traz a pontapés da desgraça... Não me dirás tu que hei-de eu fazer para ser o que tu és?
—E que achas tu que eu sou?—perguntei eu, porque não sabia ainda então o que era.{17} «És homem de juizo. Tens ha dez annos um cavallo velho e magro, uma casinhola na provincia que te rende doze carros de pão e quinze pipas de vinho verde, uma sobrecasaca preta com os cotovellos rapados, e vives feliz.
—Muito feliz.
«Pois ahi está! E eu, com quarenta mil reis mensaes de rendimento, tenho gasto metade do capital, e desconfio que devo a outra metade.
—Pois se queres ser homem de juizo, deixa cossar-se o teu casaco nos cotovellos, limita o teu luxo de equitação a um cavallo digno de ser cantado pelo Manoel Duarte Ferrão, faz de conta que colhes doze carros de pão e quinze pipas de vinho verde e serás feliz.
«É tarde, meu caro João Junior, é tarde. Creei necessidades que não posso matar sem que ellas me matem. Preciso dinheiro, venha elle d'onde vier.
—De mim, de certo não vai, meu amigo. Bem sabes que o pão e o vinho este anno não deram nada. Desde Março d'este anno, em que morreu o rei, parece que desappareceu de Portugal o estomago mais consumidor que tinhamos. Tu não tentaste ainda a fortuna pelo lado do casamento?
«Ainda não. Tem-me lembrado algumas vezes essa asneira salvadora; mas, sou tão infeliz, que desconfio de tornar-me ridiculo, se o tentar.