—O mal feito não se remedeia, primo Pantaleão. Do que se tracta agora é de chamar cirurgiões, que a menina está muito doente. O snr. Bento está aqui para remediar o mal que fez.
«De certo, minha senhora—murmurou o meu amigo.
—Pois então—acudiu Pantaleão—trate-se já do casamento.
«Já?! não é possivel!—redarguiu D. Mafalda—A menina está... pois tu não sabes como ella está?!
—E então que tem lá isso?!—replicou o fidalgo—Chama-se ahi o abbade ao quarto, dizem-se as duas palavras, e arruma-se o negocio d'uma vez.
«Eu estou prompto a obedecer-lhe—disse Bento;—mas eu muito queria que a minha noiva não estivesse a soffrer no momento mais feliz da nossa existencia. Se ella estivesse perigosa, em tão triste caso, de certo seria eu o primeiro a lembrar o cumprimento da minha palavra; mas, se por em quanto não ha receio, por que não ha-de{107} o nosso casamento espaçar-se para um dia mais alegre?
—Eu acho que diz muito bem, snr. Bento de Castro...—disse D. Mafalda.
Pantaleão cedeu ás razões do genro, e ás minhas, que tiveram sempre uma tal ou qual preponderancia na opinião dos parvos. Serenou-se a tempestade, e Pantaleão, d'ahi a pouco, estava extasiado ouvindo da bocca eloquente de seu primo as proesas de Silveira, e as esperanças seguras da queda da constituição.
D. Mafalda veio dizer a Bento que a menina, sabendo que elle tinha chegado, ficara em grande alvoroço de alegria, e pedira que lh'o levassem ao quarto, se isso não parecesse mal.
Castro foi ao quarto de Hermenigilda. Parece que lhe deu algumas palavras animadoras e ouviu algumas queixas sentidas da sua demora, e da sua ingratidão. O momento, porém, era improprio para arguições e defezas. Hermenigilda estava pagando á natureza o doloroso preço dos gosos maternaes. Bento sahiu com semblante melancolico, e propoz-me um passeio no pinhal visinho.