«A expedição, porém, attingiu o seu fim não obstante os entraves, as difficuldades e a opposição que, partindo já de particulares, já mesmo de auctoridades, pareciam a cada momento embargar-lhe o passo. A minha propria qualidade de estrangeiro{18} assustava a muitos, e vibravam esses sobre mim todos os ataques que se lhes suggeriam.
«Perdôo-lhes, porque, se lhes não faltasse instrucção, e os mais rudimentares conhecimentos da historia patria, teriam encontrado exemplos nos tempos mais gloriosos de Portugal em que estrangeiros se achavam ao seu serviço, e eram altamente considerados. Citarei antes de todos um allemão como eu Martim Behaim, o companheiro de Diogo Cão...
«No proprio exercito não é desconhecido o nome do conde de Schomberg, que se batia nas suas fileiras pela liberdade de Portugal. E, se me quizesse entregar agora a mais investigações, estou certo de que poderia mencionar nomes de outros compatriotas meus que exerceram elevados cargos nas colonias portuguezas ao tempo da sua maior florescencia.
«É com a maior magua que eu vejo perdidos todos os trabalhos, todo o zêlo e dedicacão com que esta expedição se houve para assegurar a Portugal a posse de uma tão rica e vasta região. Mas talvez ainda, se as indicações urgentes que tenho feito ultimamente e que me devem ter precedido, chegarem a tempo de em Portugal se poder insistir pela posse d'essas terras, a Inglaterra esteja hoje mais disposta a cedêl-as em vista das lições praticas que tem tido ensejo de ir ali aprender.
«No caso de Portugal conseguir tão favoravel desenlace para as suas pretensões justissimas, ha ainda a vencer o mais importante—a falta do capital.
«Exhausta de dinheiro como hoje se acha a nação pelos enormes sacrificios a que tem sido forçada, ver-se-ha de futuro na impossibilidade de dar ás colonias o impulso exigido pelo rapido caminhar da civilisação. A sua posição será difficil, vendo-as ameaçadas de ficar estacionarias, ao passo que as colonias vizinhas progridem, e expostas assim a novos perigos.
«Na minha humilissima opinião, só vejo um meio de conjurar o perigo. É fazer o que fazem os inglezes hoje em Africa e o que têem feito n'outras partes em identicas circumstancias: crear o capital preciso, sem onerar os cofres do estado, por intermedio de poderosas companhias á similhança da East Indian Company. É só d'essa fórma que Portugal poderá dar á provincia de Moçambique o colossal impulso de que ella agora carece,{19} para caminhar na vanguarda do progreso colonial. A nação libertar-se-ha assim das muitas despezas com que lucta, e terá encontrado até uma importante fonte de receita.
«Póde ser que eu me engane, mas creio que só d'esta fórma se poderá luctar com vantagem.
«Oxalá que eu veja ainda dias mais prosperos para a provincia de Moçambique, e em especial para esta parte da Africa portugueza onde sempre fui bem acolhido e que, como se fosse uma segunda patria, eu tanto amo.»
Eis o que eu escrevia em Tete em 21 de maio de 1891, hoje só me resta fazer votos por que se estenda á Zambezia septentrional a rasgada e intelligente iniciativa graças á qual se concedeu a outras companhias o direito de explorar os territorios ao sul do Zambeze, que de certo não são nem mais ferteis, nem mais ricos, nem mais colonisaveis do que os percorridos pela expedição que eu tive a honra de dirigir.