Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
N'um amor grande como um mar sem praias,
Ouviamos os meigos dithyrambos,
Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,
Eu comtigo, abraçado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-te os beijos que me déras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao collo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como o arminho
Pesava menos que um papel de sêda…

E foste sepultar-te, ó seraphim,
No claustro das Fieis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte,
N'esta velha cidade tão sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,
Se podéra na terra achar supplicios,
Eu tambem me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilicios.

MERIDIONAL

Cabellos

Ó vagas de cabello esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o crystal d'um lago refulgente
E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
No barathro febril da vossa grande treva,
Que tem scintillações e meigos ceos de luz.