V
Haja partidos sinceros e fortes, e haverá estabilidade nos governos, condição em que não vivem as situações que se vão succedendo com pasmosa rapidez.
Um ministerio entre nós é geralmente um castello de cartas.
Toma a criança um baralho. Dobra, ampara, ajusta e compõe. Começa a desenvolver-se o vistoso edificio. Crescem os estrados; sobem as galerias. O que, ha um instante, cabia no bolso, ameaça dar comsigo no tecto. Mas venha um grão de arêa; uma carta mal disposta; um movimento de impaciencia, ou mesmo um gesto de alegria trema no braço do joven architecto, e o que era Alhambra rendada se converterá logo em naipes dispersos no chão.
Outro tanto acontece com a politica da nossa terra.
Organisa-se um ministerio com todas as apparencias de força e de vida. Parece que o leva ao poder uma onda de popularidade. Em torno ha só ruinas. Tem maioria nas camaras e goza da confiança da corôa. Espera-se que dure o tempo necessario para, ao menos, transpôr o mar de calmarias que se chama—o estudo—e que é preliminar quasi obrigado n'estas viagens, ainda mesmo para os pilotos mais experimentados e que uma pratica de annos e annos devia já ter desviado de similhantes derrotas.
Mas de repente, sem que até muitas vezes se saiba como e porque, desmaia o commandante, esmorece a tripulação, e pede-se ao cabo do rebocador a salvação, que não se poude encontrar na paciencia perdida e na energia esgotada.
Outras vezes, já voga o navio. De repente, tambem, cavam-se as ondas, sem que um minuto antes sopre a menor brisa, e a marinhagem boqui-aberta vê que o baixel aprôa ao recife, que, n'um relampago, o descose e afunda.
E como póde haver manobra a tempo, se uma parte da tripulação descora diante do perigo; outra, por bisonha, cambaleia de enjoada; esta, não conhece da faina, e aquella, indifferente ou turbulenta, não quer ou não sabe submetter-se a trabalho proveitoso, sendo poucos os marinheiros que restam para que o barco possa resistir á tormenta?
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