15 Deve-se esfregar entre os dedos para ver se he macio ao toque, e se he ligado, e ductivel. E encontrando-se corpos estranhos, se devem alimpar, e pôr de parte para conhecer de que natureza saõ. Naõ nos devemos contentar só com isto; por que se a lavage, de que acima fallamos, para as obras communs precisa muita despeza, deve-se sempre desfazer em agua hum bocado de argilla, ao menos, para conhecer-lhe precisamente a natureza, e a quantidade de substancias pouco mais ou menos, que estaõ misturadas com ella: porque como as substancias de differentes generos tem pezos especificos, que lhe saõ particulares, vasando muitas vezes a agua em que se diluio a argilla v. g. passados cinco minutos, depois passados dez, e depois quinze se chegaráõ a separar as substancias, que segundo o seu pezo, se precipitarem mais depressa, ou mais de vagar, e assim se poderáõ examinar separadamente estes differentes precipitados para se poderem conhecer melhor por experiencias particulares; porque destas differentes ligas dependem, em grande parte as qualidades das argillas, e das louças, que dellas se fazem. He verdade, que apezar da lavagem ellas conservaõ partes muito finas, e muito divididas, que lhe daõ côr, como acima dissemos; porém estas partes heterogeneas muito finas saõ pouco nocivas as louças communs. Por exemplo, se segundo diz Mr. Pott, a argilla sendo misturada com substancias de gesso se torna muito dura no fogo; diz tambem que os barros vitrificaveis, misturando-se com a argilla firme ficaõ muito duros cozendo-se; mas he hum grande defeito nas argillas o terem liga de pedras calcareas em molleculas de maior tamanho, que se calcinaõ ao cozer; e depois quando sentem humidade, inchaõ, e quebraõ a obra, se estaõ no meio do barro, e se ficaõ na superficie, a agua as dissolve, e fica hum buraco em seu lugar: todavia eu digo quando ellas saõ maiores; porque em certos casos as substancias calcareas reduzidas a pó subtil, e misturadas em pequena quantidade com substancias vitrificaveis, podem contribuir para a bondade da louça. He de experiencia que algumas vezes duas substancias, que separadas naõ saõ vitrificaveis, unidas se vitrificaõ; e com razaõ mais forte se vitrificaráõ as particulas da cal combinando-se com substancias vitrificaveis.

16 As pyrites tambem saõ huma qualidade de liga muito má; queimaõ-se ao cozer, e se dissipaõ inteiramente, e fica hum buraco em seu lugar, ou quando menos, faz huma mancha negra, similhante a escorea de ferro, e com difficuldade pega o verniz, ou vidrado sobre ella. Os oleiros dizem que o mesmo vapor sulphureo, que della, se exhalla a queimar, offende ao verniz das louças que estaõ visinhas.

17 A arêa he necessaria para impedir ás argillas muito puras o encolherem, e fazellas seccar e coser sem se quebrarem, para isto saõ proprias as arêas refractarias, que com difficuldade derretem. Os vasos que dellas se fazem, soffrem hum grande fogo, e naõ saõ sujeitos a quebrarem pelas alternativas de frio, e calor: mas he preciso hum grande fogo para as cozer, sem isto naõ fica o barro muito duravel. Póde-se com tudo fazer dellas boa louça, e mesmo cadinhos; porém saõ permeaveis a todas as substancias, que se tornaõ muito fluidas pela fusaõ, como os saes, o chumbo; porque ficando com o tecido pouco tapado, naõ as póde conter. Podia-se fazer o seu tecido mais tapado ajuntando lhe hum bocado de barro vitrificavel. Com tudo se estas arêas fossem em muito grande quantidade, diminuiriaõ totalmente a ductibilidade da argilla, e seria muito difficil o trabalhalla particularmente na roda. He verdade, que pella lavagem, se poderia tirar huma parte da arêa, que se achasse em muita abundancia no barro; mas os oleiros naõ recorrem a este meio, que precisa muita manobra: elles preferem misturar as argillas, que chamaõ muito magras, com outras, que sendo muito gordas, fazem encolher muito a louça, e quebra-se ao seccar. Deste modo com a mistura pouco dispendiosa corrigem os defeitos dos dous barros, hum por muito gordo, e outro por muito magro.

18 As areias fusiveis, vitrificaveis, e metállicas tornaõ a argilla fusivel, e a louça naõ póde supportar entaõ hum fogo consideravel sem ficar com defeito; por isso quasi todas as obras destas argillas fusiveis, saõ cozidas ligeiramente, seu interior he grosseiro, taõ poroso, que a agua trespassa os vasos sobre tudo, quando para impedir o encolher, se lhe ajunta muita arêa; e neste estado do barro só se podem fazer delle vasos de Jardins, alguidares, e fogareiros, e para os utensis communs do uso se precisa cubrillos de hum esmalte, que se chama verniz.

19 A economia obriga a fazer estas louças que se trabalhaõ com facilidade, encolhem pouco, e com hum fogo mediocre se cozem, e tem a vantagem de se poderem expôr ao fogo sem se quebrarem. Estas louças muito communs se fazem em grande quantidade, porque se daõ baratas; mas tem pouca solidez, a menor queda as quebra, e por isso saõ pouco duraveis.

20 Quando se misturaõ estas areias vitrificaveis com as argillas, ellas se chegaõ a cozer bem, sem as obras ficarem com defeitos, o seu tecido muitas vezes fica bem fechado; ellas se naõ dissolvem pelos acidos, e conservaõ os metaes, e saes derretidos; porém, como se chegaõ muito á natureza do vidro, os vasos naõ podem soffrer a alternativa do frio, e do calor; e para que se naõ quebrem he preciso esquentallos com muito cuidado.

21 Os barros, de que se usa, para fazer as louças, que chamaõ de grêda, commumente tem este defeito; sendo de hum tecido muito fechado, resistem á fusaõ dos saes, e do vidro de chumbo: porém he preciso muito cuidado, quando se passaõ do frio para o calor. Para ellas naõ terem este defeito, he preciso que naõ fiquem taõ chegadas ao estado de vidro. Ha algumas que saõ desta natureza, e que se poderiaõ ter por huma porcelana grosseira. Eu supponho os barros de que se fazem tem a liga de areia refractaria, e de arêa vitrificavel de donde resulta a vitrificaçaõ. Naõ tenho tido commodo de examinar estes barros com bem cuidado para dar por certo, o que acabo de dizer: o que posso certificar he que tendo dissolvido em muita agua o barro de Gournay, de que se fazem os potes para a manteiga de Isigny, e tendo-a vasado depois de se ter precipitado huma parte da arêa, e pyrites, que elle continha, desta argilla privada de huma parte da sua areia, mandei fazer cadinhos, que se podiaõ pôr vermelhos ao fogo, e depois lançallos em agua fria sem se quebrarem. Se eu tivesse á maõ estes barros, estou persuadido, que chegaria a fazer vasos, que naõ teriaõ algum mericimento pela belleza, mas seriaõ taõ bons como a porcelana, e teriaõ todas as perfeições, que podem haver nas louças communs.

22 Os oleiros naõ entraõ em exames taõ circunstanciados: se achaõ argilla macia ao tacto julgaõ bem della amassaõ-na, e trabalhaõ: se a achaõ muito magra, e pouco ductil, ajuntaõ-lhe argilla muito gorda: se vem que argilla diminue muito de volume em secando, e que se fende, emmagrecem-na ajuntando-lhe barro areento, ou mesmo arêa em proporçaõ que lhe permitta conservar sua ductibilidade, e a fazem cozer; se ellas derretem, ou ficaõ com defeito as peças no forno, diminuem a actividade do fogo, e só as empregaõ nos utensis communs do uso, que cobrem de verniz. Se hum fogo ordinario naõ basta para as cozer, ou dar-lhes toda a dureza, de que saõ susceptiveis, ou vem que podem supportar grande fogo sem defeito, cozem-nas como greda. Se com este grande fogo, alcançaõ que vaõ tomando a natureza de vidro para poder resistir ao fogo, fazem utensis, que naõ devem servir no fogo; como botelhas, potes para manteiga, saleiros, alguidares, quartas, e potes para leiterias. Para torna-las menos frageis ao fogo, ligaõ as argillas muito fortes com barros já cozidos, como potes de greda reduzidos a pó; entaõ, sendo bem cozidos, podem ir ao fogo os vasos ou peças, ainda que naõ haja o cuidado de as esquentar primeiro; mas os cadinhos para ensaios de metaes, ou para saes derretidos, he preciso que o barro naõ tenha substancia metálica, que se derretesse e deixasse escapar o que estivesse derretido no cadinho.

23 Algumas vezes estas ligas vem feitas por natureza, e os oleiros se servem da argilla tal, qual a natureza lhas apresenta: da qui vem a differença da louça de diversas Provincias, como as gredas escuras de Normandia, as da Bretanha, que tiraõ sobre o azul, as de Beauvais, que saõ amarelladas, tirando hum pouco a roxo, as de S. Fargeau que saõ brancas, e finalmente nas de Flandres, que mais que todas, se chegaõ á natureza da porcelana.