Eu sahira do Brazil na direcção do norte. Visitara Bahia, Pernambuco, Maranhão, Pará, Barbadas, S. Thomaz, antes de chegar a Nova-York. Atravessara o continente, depois de percorrer o Canadá, na grande linha ferrea que liga os dois oceanos. Regressando ao Rio de Janeiro, com escala em Montevidéo, traçaria enorme circulo em torno da America.
Iniciava-se agora a phase mais penosa do trajecto. Até então vinham-me noticias constantes da familia; não raros compatriotas se me deparavam; promptos seriam, em centros que mantêm frequentes relações com o Brazil, o regresso e os soccorros, se necessarios.
Mas, de ora avante, Guatemala, Honduras, Costa-Rica me apartariam absolutamente da patria, alheia em tudo a esses paizes. Era entranhar-me no desconhecido, destituido de qualquer amparo natural, sem o menor ponto de apoio affectivo, cada vez mais separado dos meus.
—Que será de mim, adoecendo? Se me achar privado de recursos materiaes? Se fallecer inopinadamente?! Que de difficuldades para que os meus amigos e parentes venham a descobrir o paradeiro de meus despojos!...
D’estas proprias reflexões, comtudo, provinha-me singular encanto. Acariciava-me a imaginação a possibilidade de conhecer, sob a imminencia do perigo, novos aspectos de homens e cousas.
Em pé, no tombadilho do Colima, prestes a levantar ferro, eu contemplava um alteroso paquete, atracado, como aquelle, a uma dóca. Entrara horas antes de Yokohama. Agitava-se no interior d’elle multidão compacta,—typos de oppostas raças, semblantes e trajos disparatados.
O espectaculo enleiava-me a attenção.
Bateram-me, porém, no hombro.
Era Mr. Randolph que tivera a gentileza de roubar alguns minutos aos seus affazeres para se despedir de mim.
Com a habitual presteza, dentro em pouco, apresentou-me elle ao commandante, recommendou-me ao commissario, presidiu á collocação das minhas malas no camarote escolhido, ministrou-me dados estatisticos sobre a marcha do navio, duração do percurso, logares em que parariamos para carregar ou descarregar.