Mr. Randolph, sem terminar a phrase, segurou-me a dextra, sacudindo-a vehemente.

—Adeus... adeus... exclamou. Bôa viagem. Divirta-se. Confio em que levará excellentes impressões da nossa gloriosa nação.

E sumiu-se de prompto, no meio das pessoas que desciam apressadamente a escada do portaló.

Breve o Colima desligou as amarras e desprendeu-se lento de terra, n’uma suave manobra.

Já se cavava regular intervallo entre elle e o caes, quando surdio n’este, correndo esbaforido, um joven chinez. Trazia na mão um papel e fazia gestos desesperados a outro chinez que da prôa do navio lhe respondia, com acenos igualmente furiosos. O espaço intermediario augmentava a cada segundo. Então o chinez que ficava apanhou bruscamente uma pedra no chão, envolveu-a no papel e arremessou-a esforçado ao chinez que partia. Grande, porém, a distancia interposta. O projectil descreveu no ar um arco de circulo e cahio n’agua, submergindo-se. Soaram gargalhadas.

No rosto amarello do arremessante transpareceu profunda magua. Poz-se a chorar. Nada mais engraçado do que um chinez chorando. Dos olhinhos sardonicos saltitavam-lhe lagrimas, na apparencia differentes das nossas, emquanto os traços se lhe amarfanhavam n’uma inconcebivel careta.

Sentirão elles como nós? Serão identicas ás que nos impellem as suas paixões? Corresponderá á dissemelhança physica um contraste moral? Não revestirá o desgosto d’elles, bem como a alegria, formas e expressões caracteristicas, de accordo com as feições e vestuarios? Haverá raças d’almas,—tartaras, ethiopes, japonezas, diversas das européas e americanas?!...

Um corcóvo do navio cortou-me as cogitações. Sahiamos barra fóra, atravessando Golden-Gate.

O Colima entestara com o pleno oceano. Ao primeiro embate, curveteava. Diante de nós se desdobrava até roçagar no firmamento o chamalóte verde das vagas.