Dimanam da sciencia exoterica os poderes magicos dos fakirs que permanecem annos a fio enterrados até ao pescoço, deixam-se morder impunemente por animaes venenosissimos, engólem toxicos violentos, apertam de encontro ao pescoço laminas aguçadas, digerem vidro moido, atravessam illesos chammas abrasadoras e sepultam-se vivos, sahindo, ao cabo de seis mezes, de debaixo do sólo, no qual germinaram plantas por cima d’elles, bons e fortes, exactamente no estado em que foram inhumados,—factos estes de authenticidade garantida por testemunhas fidedignas. Taes actos physiologicos milagrosos são simples emanações de incognitos principios que o exoterismo se propõe elucidar.

Entre as faculdades incubadas do espirito humano susceptiveis de se alargarem, destaca, conforme a doutrina de Miss Jackson, a do presentimento. O vago instincto que temos de certos acontecimentos vindouros ou occorridos em pontos longinquos, póde transformar-se n’uma funcção activa e normal, rica de proficuos resultados. Presentemente, o homem, em dadas condições, sente a previsão indistincta de alguns successos. Uma especie de voz interior o adverte de perigo imminente, da morte distante de amado ser. Partilham essa obscura intuição varios animaes: pombos que abandonam com antecedencia o telhado do predio onde vai morrer alguem, ratos que fogem da embarcação ameaçada de sossobrar. Semelhante aptidão avultará em extensão e potencia se o homem se applicar a cultival-a. A humanidade jámais deixou de acreditar na veracidade dos presagios. Formigam nas chronicas exemplos de coincidencias, apprehensões, vaticinios assombrosos. Raro o individuo que não cite um em sua vida. Grandes homens de todas as éras e raças prestaram fé a phenomenos d’essa especie. No povo mais positivo e forte da historia, o romano, os presagios influiam sobre as deliberações das assembléas e orientação do governo. Os augures preponderavam na politica. E como medravam na cidade eterna as superstições! Dias faustos e infaustos, vôos de passaros, encontros fortuitos, accidentes minimos, encerravam para os dominadores do globo sentido enigmatico que importava respeitar. Uma topada na porta de casa, ao sahir, a ruptura repentina do laço do sapato, prender-se n’um movel a roupa de quem se queria levantar, estremecimentos de palpebras, significavam para os romanos,—como modernamente treze convivas á mesa, vestir a camisa pelo avesso, entornar oleo no assoalho, accender simultaneamente tres luzes, quebrar um espelho, uivos de cão a deshóras,—significavam prenuncios aziagos de graves desprazeres, despertando austeras cogitações.

E Miss Jackson empenhava-se por me convencer da base racional de tudo isso, affirmando que nos máos olhados, talismans, quebrantos, preconceitos e abusões populares, communs, em verdade, ao orbe inteiro, deparam-se ao investigador elementos efficazes para a sciencia do futuro,—essa sciencia complexa e omnipotente que proporcionará facil communicação entre os habitantes dos myriades de planetas que fervilham no céo, abolirá a morte, dominará o tempo e o espaço, approximará as creaturas do fóco infinito, remontado cada vez mais alto pelas descobertas e conquistas do esforço intellectual, e, por isso mesmo, cada vez mais engrandecido, a causa das causas,—Deus.

Miss Jackson, demais, era exaltada vegetaliana, seguindo á risca as prescripções alimenticias da religião fundada por Sakya-Muni 500 annos antes de Christo e adoptada actualmente por mais de 500 milhões de almas.

Abstinha-se de toda e qualquer nutrição que houvesse soffrido morte. Bastavam-lhe legumes, fructas, lacticinios, pão. Proscrevia igualmente bebidas alcoolicas. Imagine-se a verdadeira provação que curtia á bordo com similhante regimen.

Enunciando argumentos, vulgarisados por Chaboseau (Ensaio sobre a philosophia budhica, capitulo XX)—e pelo Dr. Bonnejoy, (O Vegetalismo)—ella condemnava energicamente a zoophagia, prohibida pelo fundador do budhismo.

O vegetal, doutrinava a sectaria, possue todas as substancias indispensaveis á manutenção da vida, não se dando isso com a carne. Só as gramineas suppririam todas as necessidades da alimentação humana. De nenhuma carne se poderá dizer o mesmo. A nossa especie pela conformação dos dentes, estomago, figado, e tubo intestinal, deve ser essencialmente frugivora, digerindo e assimilando os alimentos vegetaes muito mais natural e completamente que os animaes. A zoophagia determina ou desenvolve a trichinose, o escorbuto, a tenia, as affecções verminosas, a nephrite, emquanto o vegetalismo é remedio efficaz contra a gota, o rheumatismo, a paralysia, as molestias cutaneas, auxilia a cura rapida de feridas, obsta ás más consequencias de operações cirurgicas e extermina o vicio do alcoolismo. Accresce que a carne, pelo sangue venoso deixado nos vasos capillares, os elementos anatomicos em via de decomposição, no momento da morte, os parasitas que escapam inevitavelmente ao mais severo exame, constitue nucleo constante de perigos para a saúde humana, e que a mor parte dos animaes entregues ao consumo publico estão doentes por infecção (typho, tuberculose, etc.) e por alimentação insufficiente, defeituosa ou excessiva. Vêde que são herbivoros os quadrupedes mais fortes, mais intrepidos, mais pacientes, mais uteis:—o cavallo, o boi, o camello, o elephante. Vegetalianos os povos mais energicos, laboriosos e infatigaveis. Assim o chinez, o escossez, o irlandez, o romano da éra republicana, o spartano. Na Grecia, os athletas eximiam-se systhematicamente ao uso da carne. Ponderai que um terreno consagrado á cultura de cereaes e fructas dá subsistencia e trabalho a um numero de homens muito mais consideravel que se fôra destinado á criação de animaes. Os camponezes possuem vigor physico extraordinario e disfructam inalteravel saúde, quasi não comendo carne.

Os asiaticos robustos, resistentes, adaptaveis aos mais insalubres climas, apenas se sustentam de arroz. Além d’isso, os animaes são nossos irmãos. Não nos assiste o direito de os trucidar para subsistirmos, quando poupando-os podemos viver melhor. D’essa arte o entenderam e praticaram os espiritos superiores da humanidade. Pythagoras, Socrates, Platão, Plutarcho, Seneca, os primeiros padres da Egreja, grandes santos, como Santo Agostinho e Santo Ambrosio, jámais mancharam seus labios com a carne e o sangue de um animal assassinado. Modernamente, o vegetalismo caminha a passos accelerados na conquista do mundo. Vegetalianos convencidos, sabios, artistas, poetas;—Michelet, Lamartine, Herbert Spencer, Ricardo Wagner, Elisée Reclus.

É o regimen economico e intellectual por excellencia. Nas cidades inglezas e americanas de importancia encontram-se ás dezenas restaurants vegetalianos, largamente frequentados. Se a sociedade inteira se convertesse ao vegetalismo, resolveria a questão social, pois a vida material tornar-se-hia baratissima, facil a todos, e desappareceriam, consequentemente, a miseria, a fome, a distincção principal entre pobres e ricos.

Sim! banamos a carne. Da morte não pódem resultar vida e saúde. Deixemos de ingerir postas de cadaveres. Lucraremos com essa abstenção immensamente. A exclusiva alimentação vegetal imprime ás physionomias e á compostura dos corpos elegancia, delicadeza, agilidade e vigor. Torna fina a pelle e limpidos os olhos; apura os sentidos; flexibilisa, esclarece, e dilata a intelligencia e a memoria; predispõe para o trabalho; purifica os costumes; suavisa e eleva o caracter...