Surprehendeu-me vivamente uma manhan o me chamar a gorda senhora para junto de si. Assumira um ar de confidencia; e foi pausada, com ademanes protectores, que assim me evangelisou:

—Não se póde negar que dom Alfonso é um guapo mancebo, bem educado e seguramente de excellente familia. Desculpe se offendo a sua modestia, mas possúo experiencia da vida e aquelles dotes logo se reconhecem. Dom Alfonso me inspira sympathia. Demais, costumo fazer bem sem olhar a quem. Por isso, espontanea e desinteressada, quero lhe prestar um serviço. Vou abrir-lhe os olhos... Mais tarde me agradecerá. Cuidado com a mexicana, dom Alfonso. Aquillo é gente mais traiçoeira que Judas. Está patente que as impudencias da joven desmiolada lhe transtornaram o coração. Não negue:—basta observar os olhos compridos que lhe lança, o modo immerecido como a acolhe, o açodamento com que a procura, desdenhando os mais. E ella o comprehendeu, a patifa, e vai usando das mil artimanhas do seu repertorio para o embahir. Colher proveitos positivos da ingenuidade alheia, eis o seu programma. Cautella, dom Alfonso. Nada de compromettimentos inuteis. Não dispenda tão fina cera com tão máo defunto. Agora, se pretende simplesmente divertir-se, o caso muda de figura. Está no seu direito e é proprio da feliz idade em que se acha. Mas, então, coragem, homem! Ponha á margem timidez e escrupulos injustificados. Não queira que, em vez de dom Alfonso (um bonito nome,—o de meu rei e senhor, a quem Deus guarde) o chamem de dom José, ridiculo não raro perante as mulheres. Nada de luxos n’uma praça aberta, onde entra quem quer. Trate-a como ella o merece. Caramba! Devia haver nos paquetes uma classe á parte para certa gente, afim de que damas immaculadas, como eu e Miss Jackson, não nos vissemos forçadas á convivencia de desgraçadas d’aquelle jaez. Parece que não acredita, dom Alfonso?... Noto-lhe geitos de protesto... Pois arrisque uma experiencia facillima... Passe, depois que apagarem as luzes, pelo camarote d’ella. Encontrará a porta entre-aberta. Penetre resoluto e abençoará as minhas caridosas indicações. Não será o primeiro, nem o ultimo. A cousa data de longe. Informe-se em S. Francisco...

E a castelhana deu-me familiar pancadinha no hombro, revirando as pupillas oleosas e arreganhando-se n’uma risada maligna.

Menos indignação que tristeza me produziram as insinuações de D. Maria Augusta. Repugnava-me admittir Lupe como a aventureira descripta. Sem embargo, as maneiras levianas d’ella, juntas ás informações de Mr. Randolph e ás que eu acabava de ouvir, projectavam-me no espirito sombras de duvida. E essa duvida me penalisava inexplicavelmente, como cruel desillusão.

Tentei a defeza de Lupe, negando sobretudo os sentimentos que a casquilha matronaça me attribuia. Mas falleciam-me elementos quanto á justificação d’aquella. Não havia ainda um mez que eu a conhecera, na promiscuidade de bordo. Onde buscar factos que rebatessem as accusações?...

Nem convinha patenteiar summo calor na advocacia, sob pena de corroborar as affirmativas concernentes ao estado de meu coração.

D. Maria Augusta abanava a cabeça, prazenteira, não se dignando contrariar meus argumentos tibios e confusos.

D’essa data em diante entrei a notar que o commandante, o commissario, os inglezes, o proprio engenheiro hollandez, Herr Pfeiffer, tão circumspecto e assiduamente entregue a calculos e leituras scientificas, derramavam sobre Lupe e sobre mim alternativos olhares carregados de malicia, gryphados, a revezes, de equivocos sorrisos.

D. Maria Augusta urdira, de certo, alguma calumniosa intriga.