Na vespera da chegada, ao anoitecer, achei-a sósinha no tombadilho, recostada taciturna na chaise-longue.

Tomei assento igual, ao lado d’ella, como em a noite da partida, e perguntei solicito qual a causa do seu desusado pesar.

—Que quer, dom brazileiro?... sômos todos sujeitos a crises mais ou menos graves. Sabe a historia de Fernan Cortez, o legendario conquistador do Mexico. Alma de tão rija tempera, energia mais inflexivel difficilmente se hão de reproduzir na historia. Sublimes, epicas as suas façanhas; sobrehumanas as suas faculdades de resistencia e aggressão. Pois o proprio Cortez desanimou. Na noite fatal de 1 de Julho de 1520, expulso com os seus da capital revoltada, batido, fugindo, vendo mortos ou feridos os seus mais possantes camaradas, o heróe deixou-se cahir á beira da estrada, junto a um cypreste, que ainda hoje existe, e ahi abandonou-se á morte, duvidoso da sua estrella, renunciando ao porvir. A arvore funebre conserva o nome com que a tradicção a sagrou,—cypreste da noite triste, pois por noche triste é conhecido aquelle episodio de nossos annaes. Quem não encontra na vida uma ou muitas noches tristes?... Hoje, dom brazileiro, é a minha.

—Mas Cortez levantou-se, reconstituio-se, venceu...

—Cortez era Cortez. E contava, demais, com um elemento decisivo de victoria.

—Qual?...

—Malitzin, ou Marina, a formosa india, filha do Cacique de Painallas, sem a qual talvez naufragasse o temerario emprehendimento do conquistador; Malitzin, a providencia do exercito de Cortez, a sua interprete, sentinella infatigavel, conselheira segura, embaixatriz eloquente e astuta, o principal instrumento da quéda de Montezuma; Malitzin, que Cortez amava e que adorava frenetica o estrangeiro Cortez...

Houve demorado silencio. Depois, —a voz carinhosa e meiga, qual até então nunca lhe ouvira, voz ungida de lagrimas represas,—Lupe continuou:

—Fique no Mexico, dom brazileiro. Desembarque amanhan em nossa companhia; consagre algum tempo ao estudo dos costumes e natureza do meu paiz. Não se arrependerá, asseguro. Não me disse que viaja para aprender?... Pois, permanecendo ali, aprenderá muito... Oh! infelizmente eu não sei descrever a minha patria como usted, dom brazileiro, descreveu a sua,—descripção que eu jámais esquecerei e me fez amar o Brazil a ponto de sonhar percorrel-o, á semelhança de quem perlustra scismando a região das chimeras e das maravilhas... Mas fique no Mexico e reconhecerá que a minha terra instiga tambem inspirações ao poeta, interesse ao sabio, indeleveis lembranças ao peregrino. Medrou, entre nós, em éras longinquas, estranha e magnifica civilisação. Vestigios de monumentos soberbos attestam ainda agora o seu esplendor. Sobre os palacios immensos dos velhos imperadores aztécas, desfraldavam-se largas bandeiras niveas, franjadas de ouro. Ouro, prata, pedrarias, thesouros estupendos era tudo no interior, onde dominavam pomposas etiquetas de metter inveja ás orientaes. E que arte divina no preparo das pedras ricas! Cortez apoderou-se de cinco enormes esmeraldas, cujo inaudito trabalho assombrou os artistas europeus de seu tempo. Representavam uma rosa, uma trombeta de caça, um peixe com olhos de diamante, uma campainha tendo por badalo uma perola, e uma taça, gravada de religiosos disticos. Aurea cadeia, espantosamente cinzelada, concatenava-as. A imperatriz Izabel, esposa de Carlos V, quiz possuir esse primor; e o monarcha propôz compral-o por fabuloza quantia. Mas Cortez brindou com elle sua noiva, D. Juana de Zunia, filha dos duques de Bejar. Mais tarde, levando a Argel as famosas esmeraldas, o conquistador naufragou e perdeu-as no lodo da praia.