Ainda alli se construiam galeras, carracas, fustas e caravellas; ainda alli se carregavam as embarcações, que levavam homens e mantimentos para as nossas possessões, ainda alli se apparelhavam as armadas que iam a combater, e se descarregavam as que vinham da India com especiarias.

Estas excursões pouco proprias de uma rapariga que ia entrar n’uma puberdade promettedora; cujas fórmas começavam a desenhar-se em linhas felizes; e a cujo caminhar cadenciado os exercicios physicos tinham dado uma elegancia especial, não agradavam á sizuda e rebarbativa irmã primogenita.

Começaram então os reparos, as prohibições, as repressões, que em vez de alcançarem o recato e a compostura requeridas, mais excitaram no animo da insubmissa Antonia o espirito de revolta.

Ás recriminações da sensatez, correspondiam os impetos insubordinados.

De um lado o resguardado viver no interior da habitação lisboeta da edade média, com as gelosias de rotulas cerradas, e adufas cahidas, na qual a femea semi-arabe, ancilla enclausurada tradicionalmente, fiava durante as horas da sésta, até que entre lusco e fusco sahia a pedir ás visinhas lume para apromptar a ceia do marido, e a depenicar um pouco na reputação alheia; do outro lado a alma celtibera, impetuosa e independente que destroça cadeias, e rompe preconceitos, que é ciosa de emancipação individual, que se governa a si propria, indomavel, e que se encarna nas figuras de Brites de Almeida, a lendaria padeira de Aljubarrota; em Izabel da Veiga a heroina de Diu; em Filippa de Vilhena e Magdalena de Lencastre, as matronas da restauração; na filha do cosmographo Pedro Nunes, a freira de Coimbra; e em nossos dias n’uma neta de Vasco da Gama, cujo nome de Constança é já glorioso.

As duas irmãs representavam as qualidades typicas da mulher portugueza da pequena burguezia n’aquella quadra—a que, educada no recato moirisco, tinha a existencia quotidiana limitada pelo horizonte da sua rua, e as aspirações reduzidas a ver passar de anno a anno as pompas do «Corpus Christi»; e a que, deslumbrada com as aventuras narradas pelos capitães de navios, que regressavam de remotas paragens, sonhava com os explendores do Oriente, com os jardins de Ceuta, com os dramaticos encontros com piratas no alto mar, e com os cercos famosos das fortalezas da Africa e da India, em que as mulheres representavam por vezes tão insigne papel. Com estas narrativas de epopeia e miragem de riquezas, começava a levedar na alma da rapariga a aspiração de emigrar em companhia dos que partiam...

D’esta antinomia de caracteres havia de nascer necessariamente um conflicto de vontades. A mais velha, exigente e escudada com a razão, impunha recolhimento; a mais nova resistindo, proclamava emancipação. O resultado não se fez esperar.

Uma manhã Antonia enfiou na cabeça o seu capello, alforjou no bolso de briche o pequeno peculio que a mãe lhe deixára; e eil-a ahi vae pelas tortuosas quelhas em direcção á rua dos mercadores de fato feito e roupavelheiros, á porta dos quaes se penduravam, balouçando ao sabor do vento, casacos, vareiros alcatroados, e calçotas oleadas dos pescadores da Costa. Alli ajustou um «vestido conforme ao trajo dos moços que vivem no mar em navios mercantes» e munida de uma thesoura dirigiu-se para o campo, fóra de portas. Não ficava n’esse tempo longe para qualquer dos lados, pois Lisboa ainda estava quasi toda encerrada nas muralhas de D. Fernando.

Sahindo pelas portas da Trindade, logo alli achou perto de Santa Catharina o que procurava, isto é, um lugar escuso onde, depois de cortar o cabello despiu o trajo de mulher e envergou o de grumete. Desceu então pelo corrego junto da muralha, e vindo dar ao Cata-que-farás dirigiu-se á Ribeira, perto das tercenas navaes.

Fervilhavam-lhe no cerebro projectos arrojados, atravessavam-lhe a alma de creança rajadas de emancipação.