Felippe III, isto é Filippe II de Portugal, quando veiu a Lisboa em 1619 quiz vel-a.
Tinha essa entrevista por motivo não sómente satisfazer a curiosidade do monarcha, mas talvez um intuito politico.
Era conhecido o prestigio da valorosa amazona a quem chamavam a cavalleira portugueza.
O soberano hespanhol no intento em que então estava de captar as boas disposições da Nação que, embora o estivesse recebendo com festejos espaventosos—cortejos, illuminações, danças e arcos triumphaes—era no entanto ainda ciosa de autonomia, aproveitava todos os meios de lisonjear, sem compromettimento, essa illusão. Affigurou-se-lhe que era um passo habil dar um testemunho da sua graça á heroina, que tão brilhantemente tinha honrado o brio portuguez.
Mandou chamal-a.
Accudiu Antonia Rodrigues ao convite. E pouco depois subia a grande escadaria do Paço da Ribeira, onde o Rei se achava, depois de ter vindo do convento dos Jeronymos.
Atravessou a sala dos Tudescos, entre os olhares curiosos da côrte, e foi introduzida na Camara onde Filippe III dava audiencias.
Devia ser um espectaculo curioso o encontro d’essa mulher forte, desempenada, de rosto aberto e olhar decidido, com o valetudinario e debil monarcha!
A pallidez de familia, tão pronunciada em Filippe, e as feições caracteristicas da casa d’Austria, tornadas celebres depois por Velasquez, nos rostos compridos e nos beiços proeminentes dos famosos quadros, contrastavam com a pelle de Antonia, tisnada pelo sol africano; com o seu rude dizer, ainda por polir; e com as maneiras de quem tinha a cavallo espetado alguns javalis e muitos moiros.
O Rei, ou por diplomacia, ou porque realmente a heroina lhe agradasse, conversou-a longamente. Acabou o colloquio (conforme diz o chronista) por lhe fazer mercê de duzentos cruzados para ajuda de custo, uma fanga de trigo em cada mez, e uma tença de dez mil réis em sua vida.