Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras—o Doutor, João Affonso de Santarem, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no manejo das Pandectas e das Institutas, que no brandir das espadas e dos arremeções.
Corria o mez de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos. A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das habitações; com os fétos de franjas recortadas, adornando as sebes; com as heras e musgos revestindo os penedos graniticos; com o velludo esmeraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das filias opulentas; com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra, sob a regencia de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se reflete nas lantejoulas de feldspatho e de mica, que atapetam os caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o geito de um sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno a physionomia rabujenta de uma creança amuada.
O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os movimentos da comitiva real. Por isso o sequito proseguia lentamente, mas sem desfallecimento.
O tropear dos cavallos e dos machos sobre o lagedo da estreita estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali á aldeiazinha do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia (duas reliquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e conductores de equipagens, alvoraçavam a gente do campo.
Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas isoladas.
E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rusticos tugurios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras. Dos cancellos surdiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando sobejos dos farneis; emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.
E a extensa comitiva colleando pelos caminhos do valle deixava á esquerda os montes levemente ondulados de Galliza a padrasto do rio Minho, e começando a subir a encosta, que vae ao Prado, avistava já a senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde escuro dos pinheiros de Bouças.
A Rainha com a sua côrte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com o Dom Abbade á frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que conduzia á portaria do convento.
El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afóra a gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se assentasse o arraial.