Ao mesmo tempo mandou que nas immediações se cortasse madeira, e se acarretassem materiaes para se construirem duas escadas e uma bastida, formidavel machina de guerra sobre rodas, de temeroso effeito contra as praças fortes.
Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa bastida, muito larga de roda a roda, e de padral a padral; com os seus tres sobrados madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de alçapão e nos pontões superiores, tres mil pedras de mão, que mandaram apanhar pelas regateiras. Havia tambem trebolhas cheias de vinagre para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.
Era um rudimento do moderno Tank; era o precursor d’essa machina de guerra, que nos campos da Belgica está actualmente exercendo a sua terrivel acção devastadora.
Ésta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes de manobrar, foi efficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados á fabricação do apparatoso engenho, apressaram-se a pedir treguas, propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Alvaro Paes. Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco á barbacã, e de dentro, encostado ao muro, fallou-lhe o commissario castellão. Longo espaço de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em plenipotenciarios. E emquanto elles fallavam, assediados e assediadores suspenderam as investidas, acudindo ao animo de uns, (os mais pacificos) esperanças de uma concordancia; refervendo no de outros (os mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o mais irreprimivel era o da Arrenegada que ardia em sanha. Sabendo que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um contendor digno d’ella.
Era uma mulher d’aquella região, a quem chamavam Ignez Negra.
Negra por appellido de familia? Talvez!
David Negro se chamava o rabbi de Castella que urdiu o enredo contra D. Leonor Telles. E Affonso Pires—o Negro—era o escudeiro de Nun’Alvares na vespera de Valverde.
Familias com o nome de Negrão e Negreiros tem havido em Portugal, pertencendo á primeira, no seculo XVIII, o poeta da Arcadia—Almeno Sincero.
Ou, seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente trigueira, como a da Sulamite do Cantico dos canticos, (nigra sum sed formosa) contrastasse com a das suas conterraneas, quasi todas alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta das nobres raças?
A iconographia portugueza é assás pobre. E, se nos faltam retratos de tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres illustres careça de qualquer documentação ácerca das feições da modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.