Nas coutadas de Cintra echôam as trombetas das caçadas régias, em perseguição de veados e javalis.

No Tejo navegam docemente as galeotas com musicas festivas, levando o Rei Afortunado ás merendas dos caramanchões de Santos-o-Velho.

Nas ruas e praças o bom povo de Lisboa vê com pasmo atravessor o cortejo, em que D. Manoel, a cavallo, é precedido pelo rhinoceronte, pela onça brava que lhe dera o Rei de Ormuz, e pelos cinco elephantes trazidos do Industão, que borrifam com aguas rosadas os toucados das meninas curiosas debruçadas das adufas rotuladas.

Baylos mouriscos, com suas retortas e folias, meneiam-se ao som dos alaúdes, pandeiros e tamboris, rufados pelas languidas agarenas, nas viellas estreitas da Alfama, subindo em danças até á Alcaçova.

Nos serões dos Paços da Ribeira, de Almeirim e de Evora, a voz de Gil Vicente e dos seus comicos exalta a fama de Portugal, a belleza das suas mulheres e a bravura dos homens.

Os rimadores palacianos e versejadores cortezãos compõem trovas, vibram apodos, entoam vilancetes e tecem enredos amorosos.

A vida é uma festa! A Côrte um scenario deslumbrante.

Entre as muitas Guiomares, Leonores e Isabeis, de quem os echos do Cancioneiro e registos mundanos repetem indiscretos ruge-ruges, duas formosas mulheres deixam fama do seu encanto—D. Joanna de Mendoça e D. Brites de Lara.

Aquella, cantada em verso por todos os poetas. Esta, cortejada por Duques e Principes.

D. Joanna, porque era triumphantemente bella e porque ella propria cultivava as lettras com relevo, inspirou muitos cantares e despertou muitas paixões. Celebrou-a o rendido Simão de Souza nas suas trovas enternecidas, e adorou-a o Duque de Bragança D. Jayme, aquelle que annos antes n’um delirio de ciume matara a primeira mulher, e que depois de conquistar Azamor veiu, n’um accesso de paixão ardente, depôr a sua alma triste no regaço da linda Joanna e coroal-a duqueza.