Ia já nos 46 annos e a sua grande casa ameaçava não ter por elle successão. Não lhe repugnava pois a espectativa de que El-Rei lhe fallasse no assumpto.

O Palacio Real de Almeirim, fundado por D. João I, e que El-Rei D. Manoel engrandecêra e alindára, já apparecia agora, n’aquelle approximar de noite fria de inverno, como uma grande mole escura, picada de luzes.

O Duque de Aveiro apeou-se á porta das casas que habitava o Arcebispo do Funchal, e ahi ficou alojado.

Logo na manhã seguinte se avistou com os soberanos, e El-Rei, sem mais preambulos, propoz-lhe para esposa D. Juliana.

D. João de Lancastre, Duque de Aveiro, não era um sonhador, um amoroso, um poeta, nem tampouco um artista. Intelligente, sim. Escriptor mesmo. Mas as suas obras denotam mais tendencias de erudição religiosa, que sensibilidade perante o encanto feminino.

Entretanto (considerava de si para si) D. Juliana era formosa, e as suas qualidades seduziam-no.

Não foi, portanto, constrangido que beijou a mão a El-Rei, agradecendo o interesse na conservação da sua Casa; e referindo-se «á que elegera para sua mulher, affirmou que nenhuma podia ser-lhe mais conveniente que aquella que lhe insinuava.»

Este rasgo do cavalheiroso Duque abafou por completo as ultimas murmurações dos soalheiros da Côrte.

Todos agora approvavam a determinação dos soberanos e a boa aceitação do Duque, que logo se ficou em Almeirim, preparando as bodas.

Na presença d’El-Rei se fez o ajuste do dote, assignando-se o contrato a 29 de Janeiro.